O tempo e a chuva (postagem temática)

8 11 2009

Sam Beam é professor de cinema, e dirigiu este primoroso vídeo para uma das muitas belas canções do álbum “Our Endless Numbered Days”, do Iron & Wine, seu nome artístico como cantor.

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Esta postagem participa da atividade idealizada por Rafael Gloria e formalizada através do blog Sintonizados. O tema desta edição foi “chuva”.





“The Fall”: o cinema fascinante de Tarsem Singh

7 11 2009

Cena de "The Fall", filme do indiano Tarsem Singh

Longe do circuito comercial, quando muito figurando na programação do Telecine Pipoca, uma obra-prima do cinema recente passou despercebida até pelos segmentos alternativos. Lamentavelmente apelidado de “Dublê de anjo” no Brasil, The Fall, filme do indiano Tarsem Singh (de A Cela), começou a circular em festivais em 2006 e somente neste ano estreou oficialmente, em DVD, neste país tropical e abençoado por Deus. Trata-se, em primeiro lugar e mais notavelmente, de uma explosão visual. A fotografia é bela a ponto de fazer o sujeito agradecer por estar vivo para ver coisas do tipo. Se o realizador já tinha surpreendido com a exuberância cenográfica de A Cela, em The Fall as cenas parecem trabalho de um meticuloso pintor de aquarelas.

Quando, procurando qualquer coisa em uma tarde desocupada, cheguei ao Telecine Pipoca, me enchi de ceticismo ao assistir à apresentação de cinco heróis bastante improváveis: Blue Bandit, interpretado por Lee Pace, que também é protagonista e narrador da “história dentro da história”; o Indiano; o ex-escravo Otta Benga; Luigi, italiano especialista em explosivos com um quê de árabe; e um jovem e excêntrico CHARLES DARWIN (??) e seu macaquinho de estimação, Wallace. Todos eles estão em uma cruzada para matar o cruel governador Odious.

“What the hell?! Não fico nem dez segundos vendo isso”. O que me salvou do erro foi perceber a linguagem de câmera privilegiada do filme. Se fosse cinema infantil, ao menos tinha esse mérito. Segui na audiência. Toda a maluquice se explicava: tratava-se de uma história sendo contada pelo enfermo Roy Walker (Lee Pace), um dublê que havia se acidentado ao tentar impressionar a namorada com uma manobra. Amargurado com a paralisia das pernas e com a perda da moça para o protagonista do filme em que atuava, ele pensa em suicídio no leito do hospital, até que a menina Alexandria (Catinca Untaru), imigrante que está hospitalizada com um braço quebrado, o encontra. Os diálogos entre os dois são um espetáculo à parte. Se Lee Pace está no seu melhor papel até a data, a atuação de Catinca é comovente:

Toda a história narrada por Roy é mostrada tal como ela se desenrola na imaginação de Alexandria. Por isso, conforme ela interrompe a narração para fazer apartes ou demonstrar preferências, a aventura e os personagens sofrem modificações. Roy aproxima-se de Alexandria e aproveita a amizade para pedir favores: a intenção é a de que a menina lhe traga as drogas que lhe possibilitarão o suicídio. Nos momentos em que Alexandria hesita, ele ameaça não continuar a história. A inocência da menina e o oportunismo do dublê permanecem em um jogo que se manifesta na narrativa de Roy, em que alternam-se momentos de singelo e simpático humor e passagens sombrias, tristes e poéticas.

O ambiente surreal da ficção reproduz a realidade desregrada, livre e ingênua da imaginação infantil, e eis toda a licença que Tarsem teve para criar um mundo incoerente, labiríntico e despudoradamente deslumbrante. Pouco importa que Charles Darwin seja retratado como um prodígio de vestuário extravagante, ou que sejam explorados todos os clichês existentes – apenas para depois derrubá-los -, ou que multipliquem-se as perguntas sem resposta: é o mundo mágico que Roy cria especialmente para Alexandria. Mas não apenas essa realidade é bonita, como também aquela em que se passa a história mesma do filme, a trama que envolve os personagens “reais”. Aqui, como não poderia deixar de ser, predomina a coerência, a cronologia e toda a verossimilhança que se exige de uma narrativa séria. Ainda assim, junto à força das atuações, Tarsem parece emprestar um toque especial a cada ângulo de câmera e arranjo de luz. A trilha sonora não deixa nada a desejar, e as canções, compostas exclusivamente para o filme, algumas cantadas pelos próprios atores, exalam poesia, e não servem como pano de fundo para a ação visual, mas são protagonistas paralelas da narrativa, numa complementaridade que em momentos alcança a força e o lirismo dos melhores lances do cinema musical.

Ao longo da aventura, o Bandido Mascarado tenta se vingar de Odious, assim como todos os demais heróis, de alguma forma ofendidos pela crueldade do governador. Note-se que Odious não é ninguém menos que o próprio ator que surripiou a moça por quem Roy estava apaixonado. Naturalmente, a relação de Roy e Alexandria torna-se cada vez mais estreita, e o afeto mútuo irá determinar o destino de duas histórias.

São poucos os filmes que reúnem as capacidades de divertir, emocionar e proporcionar satisfação estética. Arrisco dizer que Tarsem logrou criar uma obra cuja maestria não lhe ousa negar qualquer pessoa que a assista: aqui, a beleza só pode ser unânime, a não ser naqueles particulares casos em que a sensibilidade do espectador tem a profundidade de uma poça d’água. Assim como a épica abertura em preto-e-branco, o final não decepciona, e compila imagens que prestam uma justa e bela homenagem. Mas não vou encher isto aqui de spoilers. Enfim, um dos melhores filmes que já vi na vida. Primoroso. Segue o trailer:





Uniban, um caso de colégio

1 11 2009

Acabo de ver as cenas do caso Uniban. O episódio, para quem ainda não sabe, pode ser resumido assim: uma moça foi à universidade com um vestido “curto demais” e o tumulto que os estudantes fizeram (a Folha de S. Paulo chegou a abrir matéria com “…tumulto causado por ‘pouca roupa’ de aluna”, como se roupas, objetos inanimados que são, pudessem causar algum tumulto),  com direito a coro (“puta, puta!”)  e escolta policial, foi digno do que aqui chamamos de “gurizisse”.

Não falta quem tenha notado os descaminhos do moralismo que motivou o acontecimento (como aqui e aqui). Concordo com essa interpretação, em particular com esses dois textos que acabo de disponibilizar, mas acredito que a situação foi menos obra de moralismo que de imaturidade. Quando li a notícia, não me permiti formar opinião irresoluta, porquanto ainda havia o vídeo para assistir. E o vídeo foi uma viagem de volta à adolescência, aos êxtases abobados de uma idade em que a personalidade se adequa ao ambiente para poder ser bem recebida, em que se colocar no lugar do outro já não é tão distante quanto era na infância, mas torna-se ferramenta para a realização de chacotas e ofensas que garantirão subida na escada da hierarquia tribal, e bem se sabe que as tribos de adolescentes, ávidas por afirmarem a si mesmas sobre todas as demais, valoram a atitude ofensiva e desrespeitosa como a mais sublime das virtudes.

Trata-se do retrato de uma fragilidade de caráter, uma insegurança ainda não superada, uma etapa que, para deixar de ser obstáculo, não é vencida senão com certo esforço, com a repressão daqueles mesmos instintos que deixamos aflorar, porque lá nos é permitido, nos estádios de futebol. Os estudantes da Uniban, a julgar pelo episódio da moça de saia curta, estão numa espécie de fase oral, quiçá anal, do desenvolvimento psicossocial. É de impressionar o gosto com que se reuniram para xingar a colega. Alguns sacodiam, se balançavam todos de tanta alegria. O espetáculo circense ocorrido nos corredores da Uniban não se reduz, pois, a moralismo. Os acusadores nem indignados estavam – à exceção das meninas, em especial aquelas que devem acumular dívidas amargas com o próprio corpo e, portanto, consigo mesmas (há quem não veja mais em si mesmo do que um corpo, não nos faltam exemplos disso, os indivíduos do nosso tempo costumam trocar o ser pelo ter – e ter tão-somente para parecer).

Vá lá, a menina deveria saber que existe hora e local para usar roupas insinuantes, e que a universidade não é bem o lugar para esse tipo de figurino. Ainda assim, sem deixar de reconhecer o erro primeiro da estudante apedrejada em praça pública, a universidade é ainda menos lugar para a imaturidade, a molecagem, os preconceitos, o desrespeito e o oba-oba próprios dos recreios de colégio. Quero estar certo em duvidar que tal barbaridade fosse ocorrer nas faculdades que conheço mais de perto. Onde estudo, acredito que a mulher de pouca roupa teria atraído alguns vários olhares masculinos, efeito que é de se esperar e que a própria moça pretendia causar, mas não haveria rebuliço. Caso houvesse, os impropérios logo seriam tachados de coisa de gente careta e intolerante. Essa bagunça na Uniban é o que uma certa professora minha (meio doida, é verdade) chamava de “colegião”. Se eu estudasse na Uniban, iria só de cueca na próxima aula.

Só para encerrar: fico impressionado com a diversidade de casos em que as mulheres jogam no lixo tudo o que suas colegas de gênero, as feministas, conseguiram conquistar. Não espanta tanto quando lembramos que muitas mulheres tratam umas às outras como rivais.





Radio Friendly Song – Jon Lajoie

31 10 2009





Esboço sobre totalitarismo e religião – Postagem temática

17 10 2009

Que a fé obscurece a realidade é inegável. Também é fato que a realidade objetiva é matéria de discussão – o Gregory Gaboardi e o Eduardo Nunes estão habilitados para tratar a questão com o devido zelo -, mas devemos rechaçar de pronto qualquer insinuação de que a razão não é a ferramenta mais habilitada para fazer a ponte entre sujeito e realidade. Ao contrário de nos enveredarmos por debates labirínticos, recorro à ideia bastante simples, inclusive expressa por Obama em discurso recente, de que o bem-estar na sociedade massificada se torna impraticável se a fé é o elemento norteador das condutas – ou pior, das políticas, como se verá adiante. Fique claro: o exercício particular – ou de grupos que não interferem na liberdade alheia – da espiritualidade em nada atenta contra a boa vida. A questão, aqui, é dissertar sobre a fé como o vértice dominante das relações entre sujeitos e, em consequência, como motor de uma irracionalidade que, como qualquer ideologia, se presta a legitimar processos de dominação psicológica e econômica. Dito isso, podemos seguir.

São muitas as discrepâncias entre um regime teocrático e um regime baseado em uma ideologia totalitária, tanto em termos de motivação como no que se refere aos meios de coerção de que se lançam mão. O perigo, entretanto, em teoria, é o mesmo. Ao oprimido – maior interessado – não é mais que uma sutileza se a opressão vem de Stálin ou do Tribunal de Inquisição. Qualquer ismo a que se consagre uma política de totalidade será igualmente perigoso. Quando a religião esteve à frente do Estado - como ainda está em alguns lugares, embora sem tanta força -, o resultado foi um obscurantismo político que parece um inexplicável e nefasto hiato entre o direito romano e o iluminismo.

O que se propõe, enfim, é traçar, de forma embrionária, pontos de aproximação entre o discurso totalitário tal como apresentado por Hannah Arendt em sua “As origens do totalitarismo” (todas as citações sem referência de autor remetem a essa obra) e o palavrório religioso com que se busca a dominação dos fiéis. Também foi consultada a obra de Terry Eagleton (EAGLETON, Terry. A Idéia de Cultura. São Paulo: UNESP, 2003).

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É de se ponderar que o mais autêntico retrato de um líder totalitário deva ser buscado em algum ponto entre a sua interdependência em relação à massa e a disciplinada adoração que esta lhe endereça. Se, por um lado, o líder é mero “funcionário das massas que dirige” (p. 375), por outro, ele as dirige com o peso da inquestionabilidade e sob o preço da lealdade total.

O fascínio direcionado aos líderes era efeito da disposição das massas em dar crédito a explicações definitivas e universalistas e do talento magnético de Hitler e Stálin para suprir essa demanda através da ideologia e do discurso demagógico (o que foi, justamente, a fraqueza de Lênin, imperdoavelmente afeito a reconhecer os próprios erros). Pouco importava que eles soassem loucos. O próprio fanatismo, as repetições incessantes, a retórica infalível e inquestionável, enfim, o caráter convicto da loucura a legitimava como a bem-vinda verdade que vinha preencher um mundo contraditório.

O poder de infiltração psicológica da ideologia totalitária é tal que, mesmo diante de crimes contra os próprios filhos ou contra si mesmo, o adepto do regime não deixa abalar sua convicção no partido e, “dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento” (p. 358).

O que une Hitler a Stálin e os faz nutrir admiração recíproca é o fato de ambos professarem ideologias de abrangência mundial, ao contrário de Mussolini, que, preso ao nacionalismo, contentou-se com a ditadura unipartidária e esteve longe do totalitarismo, perto do qual o fascismo italiano pareceria um regime de tibetana paz. Essa aproximação entre o Führer e o líder soviético bem demonstra a intenção de traçar leis históricas imutáveis, que explicariam o passado e determinariam o futuro. Mais que uma maneira de legitimar crimes políticos e demais absurdos e sadismos, essa prática permitiu aos líderes totalitários injetar nas massas o veneno próprio das doutrinas inabaláveis. Postando-se como verdadeiros profetas e forçando a realidade a provar suas previsões, a voz dos líderes parecia às massas como a ordem definitiva a ser seguida. Líderes totalitários são fabricantes e agentes de uma utopia do pesadelo. De modo oposto ao que Eagleton chama de “boa utopia”, aquela que “descobre uma ponte entre o presente e o futuro naquelas forças no presente que são potencialmente capazes de transformá-lo” (EAGLETON, 2003, p. 37), os líderes totalitários forjam uma ponte no presente, constroem-na com formato e destino arbitrários, rumo a um futuro inalcançável e reeditado a cada nova e violenta guinada do seu delírio de poder.

De parte da elite e da ralé, os absurdos do terrorismo de Estado são aceitos por ocuparem o espaço de antigas ideias banais e hipócritas a respeito da vida e da sociedade. Sintoma disso é a rejeição à historiografia tradicional, cujo vácuo foi preenchido com fantasiosas teorias conspiratórias, previsões messiânicas e triunfalismo revolucionário. Já o homem da massa, não tão propenso ao ímpeto do totalitarismo quanto a elite e a ralé, deve ser conquistado através da propaganda.

Das muitas características da propaganda totalitária, pode-se depreender certos aspectos inerentes às massas. É inevitável que sejam encontrados elementos análogos no discurso totalitário e na retórica do contemporâneo protestantismo cristão inflamado. Isso deve-se às similaridades psicológicas, ressalvadas as devidas proporções e particularidades históricas, entre as massas que se entregaram ao totalitarismo e aquelas que se entregam à mentira organizada das religiões caça-níqueis. A receptividade pode ser explicada pela atração que as massas sentem pelos “sistemas absolutistas que pretendem ver todos os eventos da história dependentes das grandes causas originais ligadas pela corrente da fatalidade, como que eliminando os homens da história da raça humana” (Tocqueville apud ARENDT, 2006, p. 395). Não é diferente do que fazem os pastores ao delegar a Deus os sentidos dos acontecimentos passados e as decisões em relação ao futuro.

A vantagem da propaganda totalitária é a referida capacidade de fazer suas profecias incidirem sobre a realidade, mediante a criação artificial das condições necessárias para que tal empreendimento se concretize. Por ser talvez a característica mais importante do líder de massas, a infalibilidade deve se fazer acompanhar pela capacidade de realizar predições verdadeiras. Como não estamos falando de videntes no poder, falamos de evidentes fabricações, no presente, das verdades proferidas no passado.

Não há, entretanto, na obra de Hannah Arendt, apontamento mais hábil em relação à psicologia das massas modernas do que aquele que escancara a sua incapacidade de entender o acaso, o que, mais uma vez, as coloca ao lado dos crentes fervorosos, que se agarram ao sobrenatural mesmo diante das mais flagrantes evidências naturalísticas em contrário:

“Não acreditam em nada visível, nem na realidade da sua própria experiência; não confiam em seus olhos e ouvidos, mas apenas em sua imaginação, que pode ser seduzida por qualquer coisa ao mesmo tempo universal e congruente em si. O que convence as massas não são os fatos, mesmo que sejam todos inventados, mas apenas a coerência com o sistema do qual esses fatos fazem parte.” (p. 401)

E continua:

“O que as massas se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita. Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso. A propaganda totalitária prospera nesse clima de fuga da realidade para a ficção, da coincidência para a coerência” (p. 401)

Está atestada, portanto, a abertura dada às mentiras totalitárias, que encontram solo fértil na “vontade de coerência” das massas, que, inconformadas com o acaso, entregam-se a qualquer conjunto de ideias, com a única condição de que elas façam sentido em relação a si mesmas.

Estivesse viva para observar o fenômeno da propaganda religiosa de massa, especialmente através dos meios de comunicação massivos, como a televisão, a autora de Origens do Totalitarismo talvez se espantasse com a similaridade entre seus apontamentos sobre os discursos dos líderes e a conduta dos seguidores nos regimes totalitários e o fanatismo religioso do século XXI, ainda que as semelhanças estejam restritas aos âmbitos da comunicação e da psicologia. Os trechos que a autora dedica à dissecação psicológica das massas modernas soam como um convite para estudos mais criteriosos que possam mapear com maior precisão essas semelhanças.

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Este texto participa da atividade idealizada por Rafael Gloria e formalizada através do blog Sintonizados. O tema desta edição foi “fé”.





O futuro nebuloso do produto música

9 10 2009
P 5 - ATUALIDADE - CDs - Foto Flávio Dutra

Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

São tempos difíceis para a indústria fonográfica. Em 2007, o mercado brasileiro amargou a mais íngreme queda entre os 20 países que mais movimentam esse setor da economia – arrecadação 25% menor que a de 2006, conforme dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês). Dentre esses, África do Sul e Índia tiveram solitários aumentos. A atual crise econômica compõe esse cenário, mas não basta para explicar a cena: no Brasil, as vendas vêm decrescendo desde 2004, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos. Possibilitadas pela internet, a pirataria e a democratização do acesso aos “bens culturais” lançam a dúvida sobre como os criadores poderão ser remunerados com seu trabalho transitando livremente pela rede.

Artistas do mercado independente debatem-se com a questão: “Não há como gravar um disco com menos de 40 mil reais. Um longa-metragem não custa menos de meio milhão de reais. E quem paga por isso? Há muita coisa sendo pensada, mas é um período nebuloso, ninguém sabe como resolver a equação”, observa o músico Arthur de Faria.

O que possibilita que um produto seja vendido é a sua escassez. A abundância dos arquivos digitais de música – que podem ser copiados indefinidamente – faz com que o valor de troca desses “bens” tenda a zero. Mas, como ressalta o produtor musical Maurício Tagliari, da gravadora independente YB Music, não há nada de free nisso: “Quem ganha com isso? Dizem que é o público. Eu respondo que é o interesse muito econômico de quem fatura com o tráfego de dados. Não é gente pobre: se a informação circula livremente, eles ganham, e muito. E que o criador morra de fome. Eu adoraria que o público tivesse acesso gratuito ao meu trabalho, mas não é assim. Ele paga a conexão, paga a lan house. Tem muito dinheiro rolando, basta distribuir corretamente”.

Em 2007, a banda inglesa Radiohead lançou o álbum In Rainbows pelo próprio site e deixou os internautas estabelecerem o preço do download. Muita gente baixou as faixas sem pagar nada, mas houve quem desse £250 (aproximadamente R$ 700) pelo material. Experiências similares são cada vez mais frequentes e pretendem eliminar os intermediários entre artista e público. No Brasil, o cantor Lobão colocou discos para vender em bancas de revista. Para Arthur de Faria, entretanto, isso dá certo para quem já se consolidou no mercado: “Para o Lobão funcionou porque ele era conhecido, já tinha passado pela grande indústria”.

Criminalização – No final de setembro, a cantora inglesa Lily Allen comprou briga com músicos contrários à criminalização do download ilegal no Reino Unido, a quem chamou de “ricos e bem-sucedidos que fazem turnês esgotadas em estádios e que têm as maiores coleções de Ferraris do mundo” – o que não é o caso de artistas em início de carreira. Ou seja, seria fácil defender a arte compartilhada quando se desfruta de uma fama que a indústria ajudou a edificar.

Em maio, a criminalização dos downloads ilegais chegou a ser aprovada na França. A lei previa a suspensão da internet do infrator, a cobrança de multas de até 300 mil euros e prisões de até três anos. Não demorou um mês para que a justiça francesa percebesse que isso feria direitos individuais e derrubasse as sanções propostas pela lei.

A tendência é que a complicação aumente. Sites já disponibilizam faixas musicais (e audiovisuais, como no caso do Youtube) para serem tocadas sem que o usuário precise “baixá-las” – o chamado streaming: “É o destino natural e vai gerar uma mudança de pensamento, porque abole de vez o caráter de propriedade. Tu terás acesso a todas as músicas sem precisar tê-las, ainda que esse ‘ter’ seja apenas um arquivo digital”, considera Arthur de Faria.

Na contramão da ideia de propriedade intelectual estão as licenças copyleft (clara oposição ao copyright), que permitem que as obras criativas sejam livremente utilizadas, difundidas e modificadas. Os benefícios são evidentes para o caso dos softwares livres, que podem ser melhorados com o compartilhamento.

Música que gira – Para combater a pirataria e a tendência à dispensabilidade do suporte físico, o sertanejo Ralf (que faz dupla com Chrystian) criou o SMD (sigla em inglês para “Disco Semi-metálico”): mídia com capacidade de gravação de 60 minutos de áudio, em que apenas uma parte do disco é “metalizada”. Isso faz com que a produção do SMD seja 30% mais barata que a do CD e o preço final ao consumidor possa ser fixado em R$ 5.

O formato tem atraído tanto músicos independentes, como o gaúcho Richard Serraria, que se apresentou no projeto Unimúsica da UFRGS no dia 1.º de outubro, quanto sucessos de vendas, como a própria dupla Chrystian e Ralf. Ainda assim, o SMD tem obstáculos espinhosos pela frente. Se as grandes gravadoras aderissem à nova mídia, os R$ 5 arrecadados com cada unidade teriam de ser distribuídos entre os pagamentos de impostos e direitos autorais e os custos de produção e distribuição. Para as tiragens menores dos artistas independentes, o lucro é ainda mais improvável: vendendo mil SMDs, arrecada-se 5 mil reais, quantia que não cobre os gastos nem de uma produção modesta.

Contra a maré dos anúncios de óbito do suporte físico, o retorno do vinil se anuncia como personagem novo dessa novela. De todo modo, o público que vem ressuscitando os bolachões tem uma relação com a música que não se aplica à geração MP3: “Para quem ‘pilha’ nessa coisa de áudio, o MP3 é um lixo, mas quem ‘pilha’ é 0,5% das pessoas que ouvem música. Cada vez mais existe uma audição dispersa. Tu ficas três horas achando um som do bumbo na gravação do disco, e o cara vai ouvir em caixinhas ruins no computador ou com fones de ouvido na rua. A música está virando um pano de fundo”, constata Arthur de Faria.

Perspectivas – O músico e compositor Eloy Fritsch, professor do Departamento de Música do Instituto de Artes da UFRGS, considera que a internet favorece os nichos alternativos: “Ela oferece independência em relação às gravadoras majors, o que é uma ajuda para quem trabalha com música instrumental, rock progressivo, jazz… É um tempo de pluralidade, variedade e segmentação”. Arthur de Faria concorda: “O Arthur de Faria & Seu Conjunto tem uma carreira que seria impensável 20 anos atrás. Podemos ser ouvidos no mundo inteiro, conseguimos ir tocar no Acre… Sem a democratização do acesso, isso seria impossível”.

Um estudo recente dos economistas Felix Oberholzer-Gee e Koleman Strumpf, da Harvard Business School, indica que a troca de arquivos pela web não prejudica a produção cultural. Embora as vendas de discos tenham caído entre os anos de 2000 e 2007, a produção de álbuns duplicou e a indústria seguiu lucrando – a diferença é que a receita, antes concentrada nas gravadoras, se diluiu entre diversas outras empresas de entretenimento. O prejuízo financeiro causado pela troca de arquivos seria compensado por uma maior procura por espetáculos ao vivo.

Eloy Fritsch acredita que os músicos terão de se dedicar a turnês: “Existe a necessidade de colocar mais o pé na estrada, para arrecadar o que antes era renda de direitos autorais”. Quanto ao comércio, o professor opina: “A arte não é um bem de consumo. Dar um preço para a arte é uma coisa de cada um. Para remunerar o artista, uma alternativa seria cobrar uma taxa mínima por cada download e enviar para um fundo de arrecadação, que distribuiria isso para os músicos”, sugere, acrescentando que o sistema de distribuição atual, realizado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), é ineficaz, deixando muita gente sem receber.

Os números da IFPI para a venda de CDs indicam que o mercado fonográfico está em crise, mas o mesmo não vale para o comércio de música digital: em 2007, ele cresceu 185% no Brasil e 40% no mundo. Os próximos capítulos são imprevisíveis. O certo é que dificilmente outro álbum alcançará as mais de 50 milhões de cópias vendidas por Thriller. Paralelamente à oferta de produtos musicais, está crescendo a oferta da música como serviço. As estações musicais virtuais possibilitam à música driblar a condição de bem de consumo material. Se o critério para eleger o “rei do pop” é a venda de discos, é provável que Michael Jackson tenha se eternizado como majestade.

Em defesa do tapa-olho

O DJ e economista inglês Matt Mason afirma que a pirataria auxilia o capitalismo a se reinventar: “A pirataria transforma os mercados nos quais opera, modificando o modo de distribuição e forçando companhias a serem mais competitivas e inovadoras. Os piratas não apenas defendem o domínio público do controle corporativo; também forçam o big business e os governos a oferecerem o que queremos, quando queremos”, escreve no livro The Pirate’s Dilemma: how youth culture is reinventing capitalism (ainda sem tradução para o português).

A bandeira está em alta. O Partido Pirata, surgido na Suécia, vem ganhando adeptos e chegou a eleger, neste ano, um deputado para o Parlamento Europeu. Para o produtor musical Maurício Tagliari, não há motivo para comemoração: “Glamourizar a pirataria só interessa ao pirata e a grandes corporações que ganham com o tráfego de dados. A ideologia pseudoanarquista é instrumentalizada pelo sistema para iludir jovens libertários bastante eficientemente. Não estão nem um pouco preocupados com a remuneração do criador cultural”, e completa: “Se empresas como as de telefonia móvel não ganhassem com o tráfego da minha obra, eu apoiaria a adoção do amadorismo oficial em arte, mas vivemos num sistema capitalista e eu defendo a remuneração do direito autoral”.

O livro “The Pirate’s Dilemma: how youth culture is reinventing capitalism”, de Matt Mason, está disponível para download: http://thepiratesdilemma.com/download-the-book

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Esta reportagem foi realizada por Demétrio Pereira para o Jornal da Universidade (link em breve).





Conversa fiada sobre fotografia (postagem temática)

26 09 2009

Uma das opiniões que ronda a infinita discussão sobre a fotografia protesta que ela seja um índice. Isso equivale a dizer que a fotografia não representa o real, ou seja, não passa de uma interpretação maquinística da realidade. Um cara que defende isso é o Arlindo Machado.

A argumentação de Machado sugere que, devido à fotografia ser resultado de processos físico-químicos complexos, ela não pode ser tratada como indício de realidade, como querem outros, divulgadores da teoria segundo a qual a fotografia carrega em si um indício do que foi, um atestado de passado, uma prova de ocorrência. Pois bem, se a fotografia não passa de interpretação, e se interpretação é aquilo que, de certa forma, filtra a realidade, podemos dizer, sem medo de errar, que não conhecemos a realidade, mas a interpretação que nossos sentidos oferecem dela. Aos nossos olhos escapam o infravermelho e o ultravioleta; nossos ouvidos ignoram o que lhes é demasiado grave ou agudo, lhes é imperceptível uma infinidade de ruídos, assim como os violenta grande intensidade sonora. E assim por diante.

E só estamos falando nos sentidos. Não chegamos àquilo que mais caracteriza nossa interpretação da realidade, que é, percebam a ironia, a nossa privilegiada capacidade de atribuir signos às coisas do mundo (e do além-mundo!). Não só a linguagem, como o próprio pensamento, opera uma mediação, nos impede de abarcar o todo, de tocar o mundo real (porque não há palavras para tudo e porque, quando pensamos algo, não estamos pensando o resto).

Resumindo, um conceito de realidade tão feroz e implacável como o de Arlindo Machado acaba por ser inútil, decretando, em última instância, que a realidade é ilusória ou que, simplesmente, não existe. Ora, não precisamos de uma autoconsciência tão sisuda para saber que não há como representar com fidelidade o real. A própria etimologia da palavra “índice” escancara isso: um índice não passa de um signo que serve como indício de realidade. Se é signo, opera uma significação, se opera uma significação, só pode ser parte de uma interpretação. E aí está: pouco importa que a fotografia seja resultado de uma interpretação, porque… O QUE NÃO É INTERPRETAÇÃO? É claro que a fotografia não é inocente, que enquadra o mundo conforme a intenção do fotógrafo, mas o que não é assim? O que é inocente?

Nietzsche se apressaria em dizer que TUDO é interpretação. Concordo com ele. É interpretação, inclusive, a certeza que as fotografias nos transmitem de que o retratado, de fato, ocorreu. Que as pessoas estiveram ali, que o dia estava chuvoso, que alguém usava barba, que uma menina era mais esbelta, que as vestimentas de ontem não são as mesmas de hoje. Poucas coisas nos oferecem atestados tão próximos do fato. Se é verdade que não há fatos, não deixa de ser verdade a compreensão de que podemos diminuir a distância entre interpretação e fato.

Deixemos de chatice: a fotografia é um indício de realidade. Claro, tudo fica mais complicado com a popularização da manipulação digital das imagens, mas isso fica para uma postagem futura, provavelmente mais interessante que essa.

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Este texto participa da atividade idealizada por Rafael Gloria e formalizada através do blog Sintonizados. O tema desta edição foi “fotografia”.





O passeio (ou ironia de um narrador onisciente)

21 09 2009

Entrou correndo no vagão. Vira a tira metálica serpentear ao longe, nas curvas que levavam à estação. Tivera que correr – nada inesperado, porquanto lhe restava ainda toda a subida da passarela e a compra da passagem no guichê, na frente do qual havia um casal de cegos. Estavam perdidos num abraço apertado, cegos por natureza e surdos por opção: tudo o que importava era o abraço. A cena aparentava despedida. Ele segurava uma rosa vermelha na mão; ela chorava com delicadeza, mas sem dissimular o sofrimento.

Uma moça de meia-idade precedeu nosso protagonista no guichê. Vestia uma calça lilás, algum desses tecidos leves. Esmalte vermelho nos dedos, cabelos tingidos de um loiro que já perdia a briga contra o castanho:

- Me vê uma para Londres ou Amsterdã – ela brincou com o jovem atendente, entretida com o próprio riso.

Ele não entendeu. Ou não gostou. Este trem ligava Porto Alegre a São Leopoldo. Ela mudou a tática:

- Me vê uma integração – ao que ele respondeu, sério:

- Para onde?

- São Leopoldo.

As portas já iam fechando, chegaram a ameaçar morder sua mochila, quando, sem passar pelo trauma, nosso protagonista mergulhou para o interior do trem. Todos os lugares estavam ocupados, o que o levou a se ajeitar no piso, encostado a uma parede. Não era um problema: preferia o chão às cadeiras e bancos, que sempre avaliou como as mais inúteis invenções humanas – consideração redundante, dada a precária capacidade inventiva dos outros animais –, excetuando-se desse julgamento, é claro, sua conhecida função, a das cadeiras e bancos, de preservar as bundas das sujeiras térreas.

À frente do nosso anônimo personagem, um recente casal se divertia com um provável bebê acidental. Ainda sem dentes, o filho articulava protopalavras, até que um “dada” soou um pouco mais claro, para a completa festa dos pais e de mulheres gordas com sacolas que esperaram o momento para desenhar sorrisos bregas em seus rostos redondos.

De pé, dois meninos conversavam. Na verdade, apenas um falava, enquanto o outro sorria e concordava, balançando vigorosamente a cabeça. Usavam mochilas e, o falante, uma camiseta oficial de um time de futebol europeu. O assunto era sobre jogos de computador. A primeira edição do Jogo de Guerra era melhor que a segunda, que, apesar de ter mais armas disponíveis, passava-se toda na II Guerra Mundial, enquanto a primeira versão permitia ao usuário se enveredar por batalhas futuristas. Além disso, segundo o fã de futebol, muito se dizia que a melhor arma do referido jogo era a Metralhadora, o que, na sua opinião, era uma besteira, já que a Espingarda era muito mais precisa e possibilitava o acerto a distância, que era sua tática predileta. Saíram na estação Aeroporto, e o conversador ia comentando sobre como a Empresa de Jogos irá realmente inovar no Jogo de Guerra 3, que será extremamente realista e se passará no Afeganistão.

Olhava para a paisagem, o nosso protagonista. Assistia a tudo passando rapidamente pela janela do trem e gostava da sensação de entreolhar o sol matutino driblando as folhas das árvores e os corredores dos prédios para vir abater-lhe as vistas. Olhou para o lado oposto de onde estavam os meninos. De pé, havia duas meninas, mas apenas uma delas falava. Contava sobre como o namorado, que não gostava de dançar, lhe aborrecia um final de semana após o outro. O sujeito só queria ficar em casa, evitava ocasiões em que se via obrigado a dividir a companheira com desconhecidos ou, pior, amigos. A argumentação da menina-ouvinte, que resolveu opinar, faz jus ao que é próprio das amizades femininas, ou seja, o completo despudor quando se trata de arrumar a vida alheia:

- Já passou da hora de tu chutares ele.

Se formos levados a aceitar o maldoso, porém eficaz, estereótipo da amizade feminina, é provável que a menina-ouvinte esteja interessada no namorado que não sabe dançar.

A um canto do vagão, tentando esbravejar sem chamar atenção, um homem vestido com o macacão de uma empresa de bebidas repreendia um pobre interlocutor personificado por um telefone celular desproporcionalmente grande. O homem segurava o aparelho telefônico – espécie de supercalculadora dotada de poderes telecomunicativos – com as duas mãos, afirmando:

- É a última vez que vou deixar passar em branco isso daí. Não. Não. Escuta: é a última. Tu não vais mais sair antes da hora. Tu levas tudo na farra. É a segunda vez que tu deixas todo mundo na mão. Agradece que eu estou te avisando. O pessoal lá quer a tua cabeça.

O trem parou, as portas se abriram. Nosso protagonista levantou e saiu. Não ouviu as palavras íntimas do casal de cegos nem a gracinha da mulher de calça lilás. Perdeu o espetáculo fonético do bebê. Não acompanhou a palestra sobre jogos de computador nem as lamúrias amorosas de uma menina, tampouco o conselho desinibido da outra. Ignorou os xingamentos do trabalhador de macacão, o som da ferrovia ao abandono do trem e o choro quase inaudível de um cego desacompanhado que caminhava ao seu lado, espetando o chão com sua vareta, em direção às roletas e à atmosfera rica e ruidosa da cidade. Nosso protagonista, vejam bem, usava fones de ouvido.





Donos negligentes

15 09 2009
Monumentos da Capital sofrem com a depredação. Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

Monumentos da Capital sofrem com a depredação. Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

Carlos Drummond de Andrade já fi cou sem os óculos e sem o livro que oferecia a seu colega Mario Quintana. De Santos Dumont arrancaram o chapéu. O Monumento aos Açorianos foi rabiscado inúmeras vezes, da mesma forma que a chaminé da Usina do Gasômetro. O Gaúcho perdeu uma das mãos e, agora, está cercado – assim como a população urbana, de ações contra a História.

“O que o avô vai contar para os netos se nada existe para lembrar, nada para mostrar? Nós vivemos do concreto, não apenas de lembranças. Tem de haver uma referência no presente, senão como as novas gerações vão imaginar a História?” A questão levantada pela frequentadora do Parque Farroupilha Tânia Barra não é exagero. A capital tem mais de 400 monumentos, e o estado de conservação da maioria deles não é sequer satisfatório, quanto mais animador. Segundo a arquiteta do Projeto Monumenta Dóris Saraiva de Oliveira, essa já é uma característica marcante da cidade: “Porto Alegre tem um nível de vandalismo muito alto em relação a outros lugares do país. As pessoas de fora notam isso quando vêm para cá”.

De fato, os maiores problemas enfrentados pela Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal da Cultura (EPAHC) são a ação dos pichadores e o roubo de materiais. “Somos responsáveis pela preservação dos bens da cidade e nossa atribuição é fazer a fiscalização constante, mas nosso grupo é reduzido e, por isso, funcionamos mais por meio de denúncias”, revela a diretora Débora Magalhães da Costa.

Já que as condições de trabalho dos responsáveis são essas, a colaboração da comunidade na conservação é muito importante. No entanto, não basta começar a olhar ao redor, é preciso tentar entender o que se passa.

Farinhas de sacos diferentes – Uma estátua que homenageia o mineiro anônimo, um dos símbolos do município de Arroio dos Ratos, amanheceu destruída no dia 16 de agosto deste ano – restaram apenas os pés. As notícias creditaram a autoria do estrago a três “vândalos”. O trio, formado por dois menores de idade e um jovem de 20 anos, tentou subir no monumento, que desabou. Mas será possível enquadrar uma brincadeira inconsequente no que se denomina “vandalismo”?

Lorena Avellar de Muniagurria, professorada Faculdade de Artes do Paraná e especialistaem Antropologia da Arte, considera a pergunta importante: “Sob a denominação genérica de ‘depredação’, existe uma série de práticas diversas”, afirma. Além de brincadeiras com final infeliz, a professora identifi ca outras roupagens para a dita “depredação”: as pichações, que aparecem como forma de se apropriar do espaço urbano (ou seja, “deixar uma marca”); os ataques conscientes a símbolos que representam grupos sociais ou governos; e os furtos de materiais, que têm motivação fi nanceira e não fazem distinção entre estátuas, placas metálicas ou fi os de cobre de orelhões e da rede elétrica.

Há, também, a violência gratuita, como observa o aposentado Sílvio Armborst: “O comportamento de certas pessoas é o de quem não tem nada a perder e, por isso, nada respeita”. Para a professora Lorena, isso também não pode ser condenado sem um olhar crítico: “Mesmo esses casos têm sentido social e revelam problemas presentes em nossas cidades. Se a intenção é entender os motivos da depredação de monumentos e pensar em soluções, é importante atentar para isso”.

E agora? – Nas ruas, cada um “resolve” o problema à sua maneira, embora saiba que um desfecho para a situação não é nem um pouco fácil. Alguns acreditam que o ideal é o cercamento de locais públicos, como sugere o aposentado Sílvio: “Deveria haver mais segurança. No entanto, os monumentos são colocados em locais onde ela não existe. É uma questão polêmica, mas não é o caso de pensar em fechar a Redenção, por
exemplo?”.

Gisele Cardoso contra-argumenta: “Vai ser a mesma coisa porque, por exemplo, assim como pichar o lugar mais alto é um ‘prêmio’, pichar o monumento que está num local cercado vai ter esse status também”, e acrescenta: “Eu acho que essas coisas deveriam ser ensinadas na escola. Seria útil no dia a dia, ao contrário de muita coisa que a gente aprende e nunca mais usa”.

Débora, diretora da EPAHC – por onde passam as decisões sobre o gradeamento ou não de bens tombados e inventariados –, concorda: “O Ministério Público várias vezes sugeriu o cercamento do monumento a Bento Gonçalves, ali na Azenha. Sou contra. Vamos acabar cercando tudo, os monumentos fi carão todos engradados. O que tem de ser feito de forma ostensiva é educar o povo”, sugere.

A gente não quer só comida – A chamada educação patrimonial é um assunto em voga nos últimos tempos, mas poucas ações nesse sentido têm sido realizadas. A arquiteta Dóris acredita que a vigilância é um paliativo – o importante mesmo seria a conscientização da população: “O Projeto Monumenta desenvolve um trabalho social desse tipo. Fazemos ofi cinas de mão de obra em carpintaria e marcenaria com jovens em estado de vulnerabilidade e, depois, alguns trabalham nas nossas obras, aprendendo sobre a importância da preservação do patrimônio público”, conta.

O Monumenta é um programa do Ministério da Cultura presente em várias cidades do país que visa à recuperação de centros históricos e espaços públicos. Porto Alegre tem um dos maiores projetos, inclusive em recursos, que são completados pelo estado do Rio Grande do Sul e pela prefeitura, que não possui verba exclusiva para a conservação do patrimônio histórico. É também por essa razão que a situação de locais como as praças da Alfândega e da Matriz chegaram ao atual ponto.

Contudo, essas áreas finalmente estão recebendo a devida atenção. “Estamos reorganizando a estrutura da Praça da Alfândega e o monumento a General Osório já está em restauração. Na Praça da Matriz, as obras iniciarão em breve e o monumento a Júlio de Castilhos receberá um  ratamento especial, porque está pichado e enfrenta problemas com os skatistas, que utilizam o lugar para a prática do esporte”, explica Dóris. Provavelmente, a recuperação da praça não será suficiente para que esse grupo deixe de usar inadequadamente o local. É preciso ir além. “Precisamos pensar em ações educacionais que promovam a valorização e o respeito à diversidade da cultura, estimulando toda a multiplicidade do patrimônio cultural de nossas cidades, e não somente esse ‘patrimônio material’”, defende Lorena.

Para que público é o monumento público?

Na orla do Guaíba, obras que ficaram como herança da Bienal são apropriadas pelo público. Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

Na orla do Guaíba, obras que ficaram como herança da Bienal são apropriadas pelo público. Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

A reportagem do Jornal da Universidade ouviu muitas respostas para a pergunta: “Tu consegues imaginar os motivos que levam uma pessoa a depredar?”.

Aproveitando a tarde em um banco no Parque Farroupilha, o aposentado Vicente Rochemback, de 52 anos, opina: “É uma rebeldia que depende da fase da pessoa. Na adolescência tem muita gente revoltada. É um dos fatores, não o único. Tem o econômico”. Sentado ao seu lado está Sílvio Armborst, de 59 anos, também aposentado. Ele vai adiante: “Vejo isso como uma maneira de extravasar a raiva, algo como ‘eu já estou ralado, então vou me vingar’”.

A pergunta se repete em outro banco, onde está Tânia Barra, de 35 anos. Sua explicação é diferente: “É falta de serviço, mas serviço tem e não querem fazer”. Gisele Cardoso, de 30 anos, toca em outra questão: “Quem não tem o básico em casa não vai dar valor a um monumento”. Dóris Saraiva de Oliveira, arquiteta do Projeto Monumenta, também responde: “Acho que falta uma relação de carinho, de pertencer, de sentir-se parte. Parece que as pessoas não têm relação com nada: tudo que estiver fora da tua casa não interessa, não é de ninguém”.

Não é de ninguém, mas deveria ser de todos. Deveria. A professora Lorena Avellar de Muniagurria, da Faculdade de Artes do Paraná, sublinha que a arte não é um conceito universal, mas socialmente construído. O que resulta disso é óbvio: um objeto pode ser arte para um grupo, mas não para outro. “Por muito tempo, os governos pensaram a cultura nesse sentido universalista, o que contribuiu para a valorização de cânones artísticos próprios a um grupo específico”, afirma. Resultado: as expressões artísticas colocadas à margem são as de quem já é marginalizado social e economicamente.

Se uma classe tem suas manifestações segregadas, é compreensível – embora não aceitável – que não respeite as dos outros. A solução não seria a derrubada de um paradigma cultural em favor de outro, mas o contrário: a celebração da diversidade. A arte contemporânea surge com uma proposta de aproximação, principalmente por meio das “intervenções urbanas”: “Ela tenta firmar uma relação maior com o público, mas são os cidadãos que decidem o uso que será dado ao monumento”, diz Lorena.

Sem dúvida, algumas obras consolidam essa aproximação mais facilmente. É herança da 5.ª Bienal do Mercosul a escadaria na qual dezenas de porto-alegrenses acomodam-se para tomar chimarrão à beira do lago Guaíba nos finais de semana (a obra é da artista Carmela Gross). Alguns utilizam o corrimão para fazer manobras com rollers. Para quem, afinal, é omonumento público? Todos trazemos a resposta na ponta da língua, assim como Tânia Barra: “É para nós. É meu, teu, nosso”.

Esta reportagem foi realizada por Demétrio Pereira e Jaqueline Crestani para o Jornal da Universidade.





O mais festejado calouro do IA

9 09 2009
P 7 - CÂMPUS - CC Belem_FFD0822 - Foto Flávio Dutra

Alunos do curso farão parte de uma nova geração de historiadores da arte: a dos profissionais diplomados. Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

Esta edição do Jornal da Universidade inaugura uma série dedicada a apresentar os novos cursos de graduação da UFRGS. Para o vestibulando, as opções trazem consigo dúvidas inevitáveis – a maioria referente às grades curriculares. Entre os cursos estreantes está o de História da Arte, que será o terceiro no país, chegando após os recém-abertos nas universidades estadual e federal do Rio de Janeiro.

Após a divulgação nos veículos de comunicação, os telefones das redações têm sinalizado que, entre os cursos novatos, História da Arte é o mais procurado – ou, no mínimo, o que mais desperta a curiosidade – por quem pretende prestar o vestibular 2010 da UFRGS (as inscrições estão abertas desde o dia 2 de setembro).

Para o reitor Carlos Alexandre Netto, as novas opções acadêmicas atendem a duas correntes distintas: a primeira, que contempla áreas nas quais havia uma demanda reprimida, como as graduações em História da Arte e em Serviço Social; e a segunda, englobando os cursos que oferecem formação em setores inovadores, cujo mercado de trabalho ainda está em fase de consolidação, como Engenharia Física, Engenharia de Energia e Biotecnologia. No caso da graduação em História da Arte, ele acredita que o curso tem a ver com uma característica de valorização da cultura, própria do povo gaúcho. Além disso, ele considera que essa nova graduação poderá atrair candidatos mais maduros ou que já possuam formação universitária e desejem dar um novo rumo à sua atuação profissional.

Já que a procura é grande, não partamos para o próximo parágrafo sem rápidas antecipações: o curso será noturno com aulas no Instituto de Artes (IA), localizado no Câmpus Centro, e o ingresso se dará mediante aprovação no vestibular (30 vagas), sem prova específica.

Currículo A grade curricular prevê oito semestres voltados a uma formação não apenas para a pesquisa e para a crítica, mas também para a atuação em instituições culturais: “O historiador da arte precisa de um amadurecimento em relação ao meio em que irá atuar. Disciplinas como Seminário de Produção Cultural, Museologia da Arte e Museografia e Expografia, por exemplo, irão oferecer um aspecto mais pragmático no que se refere à atuação profissional”, salienta Luís Edegar de Oliveira Costa, professor de História e Teoria da Arte do Departamento de Artes Visuais do IA.

O professor, indicado como provável diretor do curso, sublinha o caráter interdisciplinar do currículo, representado por cadeiras já existentes em outros cursos, como Filosofia da Arte: “Queremos fazer trocas, receber contribuições de outras áreas. Isso não significa que formaremos historiadores da arte para atuar como jornalistas culturais ou antropólogos, mas que observamos a existência de uma série de instituições que estão crescendo em termos de programação, ambição e eventos. O historiador da arte precisa de uma base razoável em termos de produção cultural, além de uma interlocução entre esses agentes culturais que estão mais na ponta”.

Alfredo Nicolaiewsky, diretor do IA, propôs a criação do curso tão logo a oportunidade se apresentou por meio do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais Brasileiras (Reuni) e pelo apoio da reitoria. Ele irá ministrar a disciplina Práticas Artísticas, que envolverá visitas a ateliês, a aulas de preparação de voz e a ensaios tanto de orquestras como de peças teatrais: “A ideia é colocar o aluno em contato com as técnicas. Hoje, um aluno das Artes Visuais que tem a disciplina de História da Arte pratica pintura, desenho e gravura, mas o curso de História da Arte é teórico. Pode entrar quem não saiba a diferença entre uma xilogravura e uma litografia, entre uma pintura em acrílico e uma pintura a óleo. A cadeira Práticas Artísticas o levará a conhecer as técnicas”, explica Nicolaiewsky. Diretor do Instituto de Artes de 2002 a 2006, Círio Simon entende que isso faz parte da especificidade da área: “O historiador da arte precisa ter tido uma experiência estética”, pondera.

Após estudos teóricos sobre crítica de arte, haverá uma disciplina na qual será exercitada a escrita: “A proposta é capacitar o aluno para exercer a atividade do crítico”, afirma o professor Luís Edegar. No último ano, integram a grade curricular dois estágios em instituições culturais. Mas em nenhuma cadeira o caráter interdisciplinar do curso é mais evidente que em três eletivas: Tópico Especial I, II e III. Espécie de camaleão do currículo, a Tópico Especial se ajusta a um determinado contexto ou oportunidade, aprofundando temas específicos: “O conteúdo não é fixo. A cadeira é versátil, com programa sempre aberto”, esclarece Nicolaiewsky. Luís Edegar exemplifica: “Digamos que um especialista em antropologia da imagem venha ao Brasil por seis meses. Ele irá proporcionar ao estudante conteúdos que não podemos prever no currículo”, ressalta, lembrando ainda a possibilidade de participação de professores de outros departamentos da Universidade.

Essa parceria entre departamentos foi fundamental para a elaboração do currículo, e a tendência é que a interação continue. A Comissão de Graduação (Comgrad) integrará o departamento de Artes Visuais do IA, mas o curso terá disciplinas partilhadas com a Música e com as Artes Dramáticas. As matérias já existentes também serão lecionadas no Instituto, ainda que façam parte de outros departamentos. O incentivo ao diálogo com outras áreas pode se oferecer como uma alternativa interessante: “Não formaremos jornalistas culturais, mas há como cursar Jornalismo e fazer disciplinas em História da Arte como ‘curso dois’. O mesmo vale para alunos nossos que forem à Fabico [Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação Social] complementar sua formação”, exemplifica Nicolaiewsky.

Assim, ampliam-se os ambientes para os quais o aluno pode direcionar seus estudos: “A formação é permanente e, tendo esse espaço na Universidade, o estudante pode se aproximar do que seria o ideal: a democratização do currículo”, nota Círio Simon.

“Correndo na frente, atendendo tarde” – Aparentemente contraditória, essa frase do professor Luís Edegar dá conta de reconhecer o pioneirismo da UFRGS na inauguração do curso sem esquecer que a demanda por uma graduação em História da Arte já se apresentava há bom tempo. “Conseguimos algo que é a vontade de muitos profissionais. As pessoas que estão envolvidas e que têm formação viam a necessidade de que houvesse esse curso”, afirma Luís Edegar.

O professor Nicolaiewsky lembra uma situação que ilustra isso. Em uma mesa repleta de críticos, jornalistas e teóricos da arte, o crítico Tadeu Chiarelli, da USP, teria dito: “Ninguém de nós tem formação em História da Arte”. De fato, no Brasil, os historiadores da arte são egressos de graduações como Filosofia, História, Letras, Jornalismo ou Artes. Todos os intelectuais que dividiam a mesa com Chiarelli haviam se qualificado em pós-graduações, mas atuavam em uma área que, justamente por já estar profissionalizada, carecia de formação básica: “Agora haverá uma geração com uma boa base desde a graduação”, diz o diretor do IA.

Círio Simon reforça: “Sou doutor em História da Arte do Brasil, mas minha formação de mestrado foi na área de Educação e a graduação, em Artes Plásticas. Quando cheguei ao doutorado, todas aquelas ‘escadinhas’ da graduação e do mestrado estavam faltando”, comenta, destacando, também, a porta que se abre para a formalização de uma categoria profissional: “As associações têm o papel de defender o profissional, e vejo que o historiador da arte também irá se congregar. Para isso, não há sementeira melhor que um curso de graduação”, completa.

O curso pode ser relevante para a região: o fortalecimento das instituições culturais locais contribui para que o Rio Grande do Sul seja atraente para receber exposições e mais ativo no ofício de zelar por acervos. Isso sem falar de municípios como Rio Pardo e Rio Grande, cujos patrimônios culturais representam possibilidades tanto de trabalho quanto de pesquisa para historiadores da arte. Motivos não faltam para que o Departamento de Artes Visuais do IA receba com festa o seu calouro. Em caso de trote, certamente não faltará tinta.

Pela valorização das obras

Argumentando sobre a importância de não relegar as obras de arte ao esquecimento, Círio Simon, ex-diretor do Instituto de Artes, lembra da filósofa e teórica política Hannah Arendt, que faz distinção entre trabalho e obra: “O trabalho está condicionado ao descarte, à obsolescência. Os lixões estão cheios do lixo do homo faber [o homem-fábrica], do homem que faz. A arte lida com a obra, com o agir, que está sempre dentro de um projeto. É a partir de seus projetos que o homem se torna histórico. Uma criatura humana que não tem direito a projetos volta à escravidão”, diz.

Desse modo, a obra deve permanecer no tempo, e o historiador da arte aparece como o agente capacitado para lidar com aquilo que o artista deixa. Círio Simon lembra um episódio que envolveu um quadro do pintor Ado Malagoli, fundador do Museu de Arte do Rio Grande do Sul que, desde 1997, leva o seu nome: “Certo dia telefonaram à viúva de Ado, dona Ruth, pedindo autenticação de um quadro. Era um autêntico Ado Malagoli, que havia sido comprado dos Mensageiros da Caridade pelo preço de dez reais”, conta. Em resumo: a falta de informação levara alguém a transformar uma importante obra de arte em uma “boa ação do dia”. Há quem confunda a obra e o trabalho. Entre outras coisas, o historiador da arte é, justamente, quem sabe reconhecer uma obra e preservá-la de um destino incerto.

Reportagem publicada no Jornal da Universidade.