
Monumentos da Capital sofrem com a depredação. Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato
Carlos Drummond de Andrade já fi cou sem os óculos e sem o livro que oferecia a seu colega Mario Quintana. De Santos Dumont arrancaram o chapéu. O Monumento aos Açorianos foi rabiscado inúmeras vezes, da mesma forma que a chaminé da Usina do Gasômetro. O Gaúcho perdeu uma das mãos e, agora, está cercado – assim como a população urbana, de ações contra a História.
“O que o avô vai contar para os netos se nada existe para lembrar, nada para mostrar? Nós vivemos do concreto, não apenas de lembranças. Tem de haver uma referência no presente, senão como as novas gerações vão imaginar a História?” A questão levantada pela frequentadora do Parque Farroupilha Tânia Barra não é exagero. A capital tem mais de 400 monumentos, e o estado de conservação da maioria deles não é sequer satisfatório, quanto mais animador. Segundo a arquiteta do Projeto Monumenta Dóris Saraiva de Oliveira, essa já é uma característica marcante da cidade: “Porto Alegre tem um nível de vandalismo muito alto em relação a outros lugares do país. As pessoas de fora notam isso quando vêm para cá”.
De fato, os maiores problemas enfrentados pela Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal da Cultura (EPAHC) são a ação dos pichadores e o roubo de materiais. “Somos responsáveis pela preservação dos bens da cidade e nossa atribuição é fazer a fiscalização constante, mas nosso grupo é reduzido e, por isso, funcionamos mais por meio de denúncias”, revela a diretora Débora Magalhães da Costa.
Já que as condições de trabalho dos responsáveis são essas, a colaboração da comunidade na conservação é muito importante. No entanto, não basta começar a olhar ao redor, é preciso tentar entender o que se passa.
Farinhas de sacos diferentes – Uma estátua que homenageia o mineiro anônimo, um dos símbolos do município de Arroio dos Ratos, amanheceu destruída no dia 16 de agosto deste ano – restaram apenas os pés. As notícias creditaram a autoria do estrago a três “vândalos”. O trio, formado por dois menores de idade e um jovem de 20 anos, tentou subir no monumento, que desabou. Mas será possível enquadrar uma brincadeira inconsequente no que se denomina “vandalismo”?
Lorena Avellar de Muniagurria, professorada Faculdade de Artes do Paraná e especialistaem Antropologia da Arte, considera a pergunta importante: “Sob a denominação genérica de ‘depredação’, existe uma série de práticas diversas”, afirma. Além de brincadeiras com final infeliz, a professora identifi ca outras roupagens para a dita “depredação”: as pichações, que aparecem como forma de se apropriar do espaço urbano (ou seja, “deixar uma marca”); os ataques conscientes a símbolos que representam grupos sociais ou governos; e os furtos de materiais, que têm motivação fi nanceira e não fazem distinção entre estátuas, placas metálicas ou fi os de cobre de orelhões e da rede elétrica.
Há, também, a violência gratuita, como observa o aposentado Sílvio Armborst: “O comportamento de certas pessoas é o de quem não tem nada a perder e, por isso, nada respeita”. Para a professora Lorena, isso também não pode ser condenado sem um olhar crítico: “Mesmo esses casos têm sentido social e revelam problemas presentes em nossas cidades. Se a intenção é entender os motivos da depredação de monumentos e pensar em soluções, é importante atentar para isso”.
E agora? – Nas ruas, cada um “resolve” o problema à sua maneira, embora saiba que um desfecho para a situação não é nem um pouco fácil. Alguns acreditam que o ideal é o cercamento de locais públicos, como sugere o aposentado Sílvio: “Deveria haver mais segurança. No entanto, os monumentos são colocados em locais onde ela não existe. É uma questão polêmica, mas não é o caso de pensar em fechar a Redenção, por
exemplo?”.
Gisele Cardoso contra-argumenta: “Vai ser a mesma coisa porque, por exemplo, assim como pichar o lugar mais alto é um ‘prêmio’, pichar o monumento que está num local cercado vai ter esse status também”, e acrescenta: “Eu acho que essas coisas deveriam ser ensinadas na escola. Seria útil no dia a dia, ao contrário de muita coisa que a gente aprende e nunca mais usa”.
Débora, diretora da EPAHC – por onde passam as decisões sobre o gradeamento ou não de bens tombados e inventariados –, concorda: “O Ministério Público várias vezes sugeriu o cercamento do monumento a Bento Gonçalves, ali na Azenha. Sou contra. Vamos acabar cercando tudo, os monumentos fi carão todos engradados. O que tem de ser feito de forma ostensiva é educar o povo”, sugere.
A gente não quer só comida – A chamada educação patrimonial é um assunto em voga nos últimos tempos, mas poucas ações nesse sentido têm sido realizadas. A arquiteta Dóris acredita que a vigilância é um paliativo – o importante mesmo seria a conscientização da população: “O Projeto Monumenta desenvolve um trabalho social desse tipo. Fazemos ofi cinas de mão de obra em carpintaria e marcenaria com jovens em estado de vulnerabilidade e, depois, alguns trabalham nas nossas obras, aprendendo sobre a importância da preservação do patrimônio público”, conta.
O Monumenta é um programa do Ministério da Cultura presente em várias cidades do país que visa à recuperação de centros históricos e espaços públicos. Porto Alegre tem um dos maiores projetos, inclusive em recursos, que são completados pelo estado do Rio Grande do Sul e pela prefeitura, que não possui verba exclusiva para a conservação do patrimônio histórico. É também por essa razão que a situação de locais como as praças da Alfândega e da Matriz chegaram ao atual ponto.
Contudo, essas áreas finalmente estão recebendo a devida atenção. “Estamos reorganizando a estrutura da Praça da Alfândega e o monumento a General Osório já está em restauração. Na Praça da Matriz, as obras iniciarão em breve e o monumento a Júlio de Castilhos receberá um ratamento especial, porque está pichado e enfrenta problemas com os skatistas, que utilizam o lugar para a prática do esporte”, explica Dóris. Provavelmente, a recuperação da praça não será suficiente para que esse grupo deixe de usar inadequadamente o local. É preciso ir além. “Precisamos pensar em ações educacionais que promovam a valorização e o respeito à diversidade da cultura, estimulando toda a multiplicidade do patrimônio cultural de nossas cidades, e não somente esse ‘patrimônio material’”, defende Lorena.
Para que público é o monumento público?

Na orla do Guaíba, obras que ficaram como herança da Bienal são apropriadas pelo público. Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato
A reportagem do Jornal da Universidade ouviu muitas respostas para a pergunta: “Tu consegues imaginar os motivos que levam uma pessoa a depredar?”.
Aproveitando a tarde em um banco no Parque Farroupilha, o aposentado Vicente Rochemback, de 52 anos, opina: “É uma rebeldia que depende da fase da pessoa. Na adolescência tem muita gente revoltada. É um dos fatores, não o único. Tem o econômico”. Sentado ao seu lado está Sílvio Armborst, de 59 anos, também aposentado. Ele vai adiante: “Vejo isso como uma maneira de extravasar a raiva, algo como ‘eu já estou ralado, então vou me vingar’”.
A pergunta se repete em outro banco, onde está Tânia Barra, de 35 anos. Sua explicação é diferente: “É falta de serviço, mas serviço tem e não querem fazer”. Gisele Cardoso, de 30 anos, toca em outra questão: “Quem não tem o básico em casa não vai dar valor a um monumento”. Dóris Saraiva de Oliveira, arquiteta do Projeto Monumenta, também responde: “Acho que falta uma relação de carinho, de pertencer, de sentir-se parte. Parece que as pessoas não têm relação com nada: tudo que estiver fora da tua casa não interessa, não é de ninguém”.
Não é de ninguém, mas deveria ser de todos. Deveria. A professora Lorena Avellar de Muniagurria, da Faculdade de Artes do Paraná, sublinha que a arte não é um conceito universal, mas socialmente construído. O que resulta disso é óbvio: um objeto pode ser arte para um grupo, mas não para outro. “Por muito tempo, os governos pensaram a cultura nesse sentido universalista, o que contribuiu para a valorização de cânones artísticos próprios a um grupo específico”, afirma. Resultado: as expressões artísticas colocadas à margem são as de quem já é marginalizado social e economicamente.
Se uma classe tem suas manifestações segregadas, é compreensível – embora não aceitável – que não respeite as dos outros. A solução não seria a derrubada de um paradigma cultural em favor de outro, mas o contrário: a celebração da diversidade. A arte contemporânea surge com uma proposta de aproximação, principalmente por meio das “intervenções urbanas”: “Ela tenta firmar uma relação maior com o público, mas são os cidadãos que decidem o uso que será dado ao monumento”, diz Lorena.
Sem dúvida, algumas obras consolidam essa aproximação mais facilmente. É herança da 5.ª Bienal do Mercosul a escadaria na qual dezenas de porto-alegrenses acomodam-se para tomar chimarrão à beira do lago Guaíba nos finais de semana (a obra é da artista Carmela Gross). Alguns utilizam o corrimão para fazer manobras com rollers. Para quem, afinal, é omonumento público? Todos trazemos a resposta na ponta da língua, assim como Tânia Barra: “É para nós. É meu, teu, nosso”.
…
Esta reportagem foi realizada por Demétrio Pereira e Jaqueline Crestani para o Jornal da Universidade.