Reportagem publicada no Jornal da Universidade.
TEXTO DEMÉTRIO PEREIRA E LUCIANE COSTA
FOTOS FLÁVIO DUTRA

Tecnologias audiovisuais ocupam um espaço maior em relação a edições anteriores da Bienal
Olhares intrigados é o que mais se vê pelos pavilhões e corredores da 7.ª Bienal do Mercosul. Divididas Entre armazéns do Cais do Porto, o Santander Cultural e o Museu de Arte Ado Malagoli do Rio Grande do Sul (MARGS), as sete exposições desta edição, intitulada Grito e Escuta, mantêm a tradição de provocar estranhamento. Mas, como alertou o presidente da Fundação Bienal do Mercosul, Mauro Knijnik, na abertura do evento para a imprensa, esta é uma bienal “diferente, não convencional”. Todas as edições, de certa forma, fugiram do convencional (Voltaire Schilling que o diga). Ainda assim, neste ano há novidades. Com um corpo de curadores composto quase completamente de artistas (a exceção é a crítica argentina Victoria Noorthoorn, que forma o par de curadores-gerais com o chileno Camilo Yañez), Grito e Escuta tem como vértices mais característicos a interação com o público e a cidade, a proposta de pensar os processos de criação artística e um espaço nunca antes tão vasto para as tecnologias audiovisuais, como filmes, programas de computador interativos e fones de ouvido que pendem do teto.
São sete mostras pautadas por diferentes conceitos: a transparência e a intimidade do pensamento do artista através do desenho (Desenho das Ideias, no MARGS); o processo artístico e a relação do artista com as obras (Biografias coletivas e Ficções do invisível, nos armazéns A5 e A4, respectivamente); a estranheza e a ideia de instabilidade (Absurdo, no Armazém A3); o diálogo com a cidade e o espaço público (Texto público, no Armazém A5 e em diversos pontos de Porto Alegre); vídeos e trabalhos de projeção luminosa (Projetáveis, no Santander Cultural) e a dinamicidade das obras representada em modificações programadas para ocorrer ao longo da mostra (Árvore Magnética, no Armazém A6).
Escambo de desejos – Evidentemente, essas rápidas descrições não fazem justiça à riqueza e à diversidade do que se exibe em cada exposição. No trabalho A Grande Troca, alocado em Biografias Coletivas, o francês Nicolas Floc’h apresenta objetos feitos de madeira que correspondem, em tamanho real, aos desejos materiais de adolescentes do Morro da Cruz: instrumentos musicais e fardamento para uma banda, goleiras e bola para o futebol; de residentes do edifício da Comunidade Autônoma Utopia e Luta: material para a pintura do prédio; e de alunos e funcionários de uma escola do bairro Lami: uma van para suprir a carência de transporte coletivo no bairro.
Os próprios entrevistados pelo artista construíram os objetos, e a ideia, que era a de que o público da Bienal os trocasse por seus respectivos “reais”, já está consumada: curadores e representantes de museus trocaram quase tudo, inclusive a van.
Outra proposta que trabalha com a questão do desejo é Ponto de Gravidade, do coletivo Provisório Permanente, formado pelos argentinos Victoriano Alonso, Eduardo Besualdo, Hernán Soriano e Pedro Wainer. Em locais específicos da cidade, tiras de papel são distribuídas para os passantes. Estes escrevem o que desejam nos bilhetes e os colocam em balões, que são lançados ao céu, carregando anseios anônimos que passeiam no ar até aterrissarem. Como o endereço eletrônico dos artistas está impresso nos papéis, quem encontra as bexigas entra em contato, e os pontos de decolagem e pouso são marcados em um mapa de Porto Alegre situado no armazém A5. Na última vez em que a reportagem do JU esteve lá, um balão lançado próximo ao Mercado Público recém havia sido encontrado em Viamão.

Réplicas de prédios públicos são pintadas livremente em Monumentos Vandalizáveis, de José Carlos Martinat
Arte-camaleão – Em cima do Palácio do Itamaraty, o Congresso Nacional. Amontoam-se também o prédio do Ministério da Justiça, o Centro Administrativo de Porto Alegre, a Catedral de Brasília, o Museu de Arte e a Pinacoteca de São Paulo, as logomarcas do Banrisul e da Gerdau. No início da Bienal, a brancura dessas maquetes gigantes, confeccionadas pelo peruano José Carlos Martinat, ainda esperava a tinta dos pincéis e sprays convenientemente disponibilizados para o público. Pouco tempo após a abertura à visitação (e participação), esses “símbolos do poder” já estavam completamente coloridos de rabiscos, assinaturas, carimbos, declarações de amor, protestos, desenhos, versos de paz e xingamentos. A cada dia, a obra Monumentos Vandalizáveis é modificada por um público cuja espontaneidade costuma ser reprimida por alguns desses poderes, que têm suas casas pintadas no armazém A6 do Cais do Porto.
Em Árvore Magnética, trabalhos como o de Martinat passarão por pelo menos dez transformações. Isso tanto insere o tempo no eixo de compreensão das obras como demonstra que a arte não é estanque e convida a um retorno constante do público – “e da imprensa”, completa Mario Navarro, artista chileno encarregado da curadoria da exposição. “Esse conceito foi desenvolvido especialmente para a mostra e busca permitir ao público uma visão mais ampla do período que ela dura”, observa.
Para ele, a proposta está inscrita em uma ideia segundo a qual a Bienal não é apenas entretenimento: “Pensamos que se pode desenvolver conhecimento em função das obras de arte. No caso da Árvore Magnética, tem a ver com o fato de o artista sempre estar pensando que sua obra está em desenvolvimento, e não definida”, explica.
O também chileno Diego Fernandez, em Protocolo Ouro Preto, articula essas modificações para tratar da responsabilidade política da arte. São diversas salas contíguas, acessíveis apenas depois de a parede que as separa ser derrubada. No interior de cada um desses espaços são exibidos vídeos – na primeira, filmagens de Porto Alegre remetem, esteticamente, ao documentário O triunfo da vontade, em que a cineasta Leni Riefenstahl retrata a convenção do Partido Nazista de 1934; na última, serão mostradas as cenas da depredação de todas as paredes.

A duna determina os contornos da imagem em Cair em si, de Márcia X
Dialogando com o absurdo – Uma mulher de cabelos compridos enche calmamente copos com um líquido esbranquiçado que escorre de uma concha. A projeção é feita em uma das dunas formada pela areia depositada no armazém A3 por vinte caminhões. Os alunos da Escola Estadual Maria das Neves Petry, de Novo Hamburgo, observam com curiosidade a ação da artista carioca Márcia X, falecida em 2004, e autora de Cair em si, que integra a mostra Absurdo – uma das que mais impacto causa no público.
Lá, a mudança também faz parte da ordem do dia: o espaço e o suporte das obras se alteram ao longo do evento. Com curadoria da brasileira Laura Lima, a mostra tem como foco a instabilidade que é expressa, por exemplo, nas marcas na areia feitas pelo caminhar dos visitantes e pelas brincadeiras esculturais das crianças, que instigam o questionamento sobre os limites formais da arte.
A organização da Bienal, por meio de seu Projeto Pedagógico, trouxe escolas das redes pública e articular do estado para as dunas do armazém A3. Frente ao absurdo, crianças e adolescentes demonstravam espanto e excitação em relação a imagens tão diferentes do que estão acostumados. A estudante de Novo Hamburgo Miquele Cardoso, ao saber que viria a Porto Alegre para o evento, imaginou algo semelhante às pinturas que vê na telenovela Caras e Bocas – a concepção de arte que conhecia até então.
Com o auxílio dos mediadores, os alunos eram incentivados a pensar naquilo que observavam, ao que, com frequência, surgiam questionamentos como “qual é o objetivo desta obra?”. A resposta vinha com um convite à reflexão: “Vocês interpretam!”. Segundo a professora Maria Lucia Cattani, chefe do Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS, é característica da arte – não só da contemporânea – não ser algo fechado, permitindo diferentes olhares sobre si.
A argentina Marina de Caro, curadora do Projeto Pedagógico da Bienal, esclarece que as crianças devem ter um contato particular com as obras antes de terem sua interpretação mediada: “A proposta é que eles entendam as idéias primeiro, por meio de uma experiência, e, depois, comecem a receber informação.
Os próprios professores podem mediar porque eles sabem o que estão trabalhando com os pequenos, com quais áreas podem relacionar: a ideia de transformação do meio ambiente, da geometria, da história… São ferramentas de pensamento, e trata-se de um pensamento transversal, não linear”, considera.
Em relação aos demais visitantes, a mediação leva em conta um observador com olhar refinado: “Procuramos considerar um público que tem conhecimento, que maneja muita informação e que tem a possibilidade de falar. Promovendo um trabalho com fichas práticas, também há como associar as obras a diferentes áreas do saber. Então não é mediar a arte em si mesma, mas sim em diálogo com a realidade, com outras disciplinas, com o saber próprio de cada espectador”.

Brincadeiras na areia interagem com obras e reforçam ideia de instabilidade proposta pela mostra Absurdo, no Armazém A3 do Cais do Porto
No concreto da cidade e no intangível do virtual

"A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica"
Uma das características desta e das outras bienais é levar a arte a espaços não convencionais, empreendendo uma invasão da cidade. Claro, há mostras no MARGS e no Santander Cultural, locais cuja função evidente é abrigar exposições, mas as obras ganham também os armazéns do Cais, o Mercado Público, o Parque da Redenção e as ruas da cidade.
O artista pernambucano Paulo Bruscky, no primeiro dia da Bienal, realizou a performance Poesia Viva, na qual voluntários vestiram camisetas com letras que formavam palavras aleatórias. No trajeto entre o Mercado Público e o MARGS, a arte invadiu o cotidiano do movimentado Centro de Porto Alegre. Já o antigo palacete Casa dos Leões, localizado na Rua dos Andradas, ganhou novas formas sob a intervenção do paulista Henrique Oliveira. Pelas portas e janelas da Casa Monstro – como ficou conhecida a instalação Tapume –, se espalha uma massa disforme, semelhante a um tumor. Feita de compensado, ela chama a atenção de quem passa pela calçada.
As intervenções no dia a dia, porém, não duram apenas o período das bienais. Quase todas deixaram monumentos como herança. As “escadarias” (Cascata, de Carmela Gross) e o “pier” (Olhos Atentos, de José Resende), que se tornaram ponto de encontro na orla do Guaíba, foram presentes de edições passadas, assim como a SuperCuia, de Saint Clair Cemin, descrita recentemente pelo diretor do Memorial do Rio Grande do Sul, Voltaire Schilling, como “a exaltação de um superúbere de uma vaca premiada”.
Publicado no jornal Zero Hora, o artigo do historiador, A Capital dasMonstruosidades, trouxe para a arena pública uma polêmica nunca resolvida. A crítica à “feiúra” de alguns monumentos da cidade foi recebida com os aplausos de quem acredita na arte como representação do belo e com as vaias daqueles que defendem a multiplicidade, a provocação e o estranhamento atribuídos à arte contemporânea ainda que a renovação estética também tenha sido promovida pelo Modernismo. Na Bienal do Mercosul, há uma evidente hegemonia da segunda concepção, e é ela que permite a incorporação artística de novos suportes e tecnologias.
A mostra Projetáveis, por exemplo, reúne peças inscritas via Internet. A seleção, inovadora por si só, foi realizada a partir de um edital aberto. Entre vídeos, jogos interativos e performances de VJs e DJs, o requisito era a possibilidade de reprodução na web. Dos mais de 800 candidatos de cerca de cinquenta diferentes países, foram selecionados 19, que ocupam o prédio do Santander Cultural e podem ser vistos pelo site www.bienalmercosul.art.br/projetaveis
Computadores e projetores parecem uma transgressão, mas a professora do Instituto de Artes da UFRGS Maria Lucia Cattani, que participa da Bienal na mostra Desenho das Ideias, lembra que a arte sempre foi mediada por ferramentas: “O pincel já era uma tecnologia. Quanto a esse uso, que pode ser visto em Projetáveis, o tempo vai dizer se permanece ou não”.
Em Moonwalk, do tcheco Martin Kohout, por exemplo, vemos uma cena criada a partir de repetitivos carregamentos de imagens vazias do site Youtube, compondo uma pirâmide de barras de streaming. Já Drawing for Filó, do eslovaco Oto Hudec, reproduz em uma parede o relato de uma cozinheira angolana que mora em Portugal, enquanto, simultaneamente, é projetado no chão o desenho de uma paisagem que vai se formando conforme a descrição da entrevistada sobre a aldeia em que cresceu.
Se em anos anteriores as Bienais do Mercosul estabeleceram uma tradição de aproximação com o público, a sétima edição traz no nome essa intenção de comunicação, de diálogo. A “Grito e Escuta” não seria exagero acrescentar “Resposta”. Talvez por isso a proposta venha acumulando sucessos de crítica e visitação. As vozes do Mercosul, reunidas em Porto Alegre, têm encontrado muitos ouvidos dispostos a escutar.
O lado B da Bienal
Até mesmo o que é diferente e desafia os padrões tem o seu lado B. A partir de uma iniciativa de jovens artistas gaúchos, a maioria deles estudantes do Instituto de Artes da UFRGS, foi criada em 2007 a Bienal B. Paralela à do Mercosul, ela está em sua segunda edição e tem alcançado a meta de divulgar a arte regional. Em 2009, são obras de 266 artistas expostas em 38 espaços, que vão de galerias a bares, tendo como centro de convergência um shopping center. Assim, o público esbarra na arte e é convidado a dialogar com ela.
Segundo a curadora do evento, a artista plástica Isabel de Castro, a ideia surgiu da percepção de que havia uma demanda tanto de pessoas querendo expor quanto de um público disposto a acompanhar, apesar da recorrente escassez de visitantes em mostras de artes visuais: “Isso está relacionado com a fruição da obra, pois é diferente de um show de rock, em que uma banda pequena toca para milhares de pessoas ao mesmo tempo. A gente ainda não tem essa cultura de que um museu, por exemplo, pode atrair muita gente e que isso terá um retorno. Temos de criar isso”, justifica.
Profissionalizar o artista plástico regional é um dos objetivos mais fortes da curadoria, formada por professoras. A intenção é abandonar o romantismo do ofício e ir atrás de espaço – por isso, cada inscrito deveria articular o local para expor seu trabalho. As propostas que, por algum motivo, ainda não estavam maduras e não eram bem visualizáveis, receberam um parecer do que poderia ser melhorado e o incentivo a levar adiante o projeto, mesmo que desvinculado da Bienal B.
Vale dizer que a Bienal B não pretende se opor ao grande evento que movimenta a capital gaúcha a cada dois anos. É apenas uma forma de aproveitar a visibilidade de um momento no qual a cidade vive para as artes visuais: “Nós somos um movimento independente e queremos somar. A Bienal do Mercosul é internacional, há uma troca com a comunidade, mas não é propriamente do artista daqui. A Bienal B entra como contribuição para Porto Alegre e para a produção regional”, diz Isabel.