Country-folk by God

26 01 2010

As listas de “melhores álbuns de 2009″ quase passaram sem ser vistas em meio às eleições do que houve de melhor na década. Um quase-pecado. Muita coisa boa foi lançada no ano passado (Lady Gaga é o meu cacete alado) e, entre os consagrados pelos rankings, recomendo o dançante (porém não masturbante) CD do Phoenix, a eletrodoideira do Animal Collective, o virtuosismo melódico de Andrew Bird, a calmaria do Kings of Convenience, o retorno ao rock n’ roll do Wilco e os passeios pop n’ blus do John Mayer.

Há também os esquecidos pelos holofotes, como o belíssimo trabalho do Bill Callahan. Entretanto, o dono deste post é um dos inalcançáveis da guitarra. Desde 1995 engajado em carreira solo, Mark Knopfler lançou, em 2009, “Get Lucky”, com o qual o country-folk foi alçado às alturas inéditas da obras-primas eternas. Abandonando o estilo “fingers on a Strat”, Knopfler usa as mãos para abrir picadas e se enveredar por passeios bucólicos na companhia de violinos, pianos e flautas. Tudo que pode haver de mais kickass neste mundo.

Segue uma prova:





Seios enormes e piolhos

20 01 2010

Entrou no vagão uma moça gorda carregando um bebê gordo e grande. A julgar pelo tamanho e pelos vastos cabelos loiros, ninguém daria menos de dois anos para o bebê. Mas ele tinha menos que isso, estou certo. Estando os bancos todos ocupados, um bom cidadão que vinha lendo o Diário Gaúcho – há pouco chegara na tão esperada sessão de esportes, que eu, de pé, começava a querer ler – ofereceu o assento.

A moça gorda tentou insistir para que uma senhora ocupasse o lugar vago e, gentileza vai, gentileza vem, acabou ela mesma se aconchegando, bem na minha frente. Tão logo sentou, derramou uma enorme mama para fora da blusa e, ali mesmo, o bebezão se grudou. Se o trem balançava e o mamilo escapava da boca da criança, o choro era imediato. Quando a festa láctea terminou, o menino, satisfeito, deitou no colo da mulher e subiu os olhos até mim.

Ficou me olhando abraçado no seio em que acabara de se saciar. Expressão de despeito, prepotência tranquila. Aquele monstro chupador de tetas, agarrado em seu mamadeirão monumental, me olhava como se dissesse: “É meu”. Ficou muito tempo me encarando, como se me desafiasse. Tentei dedicar atenção para outra paisagem, mas, consciente do caráter auto-enganativo da manobra mental, fui me incomodando com aquilo. Quem não se incomoda com um par de olhos indesejáveis grudados em si, a uma distância quase física, quase não-distante? Um par de esferas azuis marcava à brasa o meu rosto indignado.

Só encontrei alívio quando o bebezão passou a coçar a cabeça meio sem jeito, com seus atrapalhados bracinhos gordos. “Piolhos”, concluí. Consumei a vingança olhando para ele com uma cara de escárnio. Com os olhos, tentava dizer: “São teus”.





Livros que falam

12 01 2010

Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

O sol que fustiga a capital gaúcha não parece incomodar um grupo de 40 pessoas reunido no Cais do Porto desde as 17 horas. À beira do Guaíba e à sombra do toldo armado junto ao Armazém A5 para uma Bienal do Mercosul em despedida, um público atento escuta Caio Fernando Abreu falar pela boca de um homem: “Há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus –, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor”.

Investidas do vento balançam um varal de folhetos. Alguns se soltam, voam para longe. Um passante cata um dos papéis dispersos; quer descobrir o que aquela gente faz ali. Caio acaba de conquistar mais um ouvinte, que ainda escutará Clarice Lispector e Julio Cortázar. É 29 de novembro e o espectador novato soma-se aos mais de 3.400 participantes que já passaram por alguma das seis edições da Maratona Literária, iniciativa inaugurada no ano passado pela Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura (SMC).

Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

A largada Reunir pessoas e ler. Parece simples, mas, em meio a urgências cotidianas, ninguém havia pensado nisso ainda. O pioneirismo foi reconhecido: a Maratona concorreu ao Fato Literário 2009 e, se o prêmio não veio, ficou a vitrine e a interação com outras propostas. Já estão marcadas visitas à Biblioteca Ilê Ará, do Morro da Cruz, e à cidade de Três Passos, do projeto “Leia Menino”, o mais lembrado pelo voto popular.

No Prêmio Açorianos de Literatura 2009, a Maratona foi destaque na categoria “Projetos de Incentivo, Promoção e Divulgação da Literatura”, mas foi “despremiada”. Ainda que os destaques do Açorianos sejam eleitos por votação espontânea, a Secretaria de Cultura alegou “mal-estar” por promover tanto a láurea quanto o laureado. De todo modo, naquela noite, todas as estatuetas foram entregues por maratonistas que, para anunciar os premiados, leram trechos das obras vencedoras.

Essa repercussão sucedeu uma ideia que nasceu tímida. Em passagem por Madri, o Secretário Municipal de Cultura, Sergius Gonzaga, descobriu um grupo que se reúne anualmente para ler Dom Quixote, em comemoração ao Dia Internacional do Livro. A intenção de fazer algo semelhante em Porto Alegre foi transmitida para Daniel Weller, coordenador do Livro e Literatura, que pensou diferente: “Em vez de serem sempre as mesmas pessoas numa rodinha intimista, imaginei uma grande festa, em que todos seriam convidados a ler tanto quanto quisessem, revezando-se espontaneamente”.

E assim foi, malgrado as desconfianças iniciais: uns não entendiam a proposta, outros não concebiam a possibilidade de um evento não ter hora para acabar – por isso o termo “maratona”: a atividade segue até que o livro chegue ao fim.

Os receios foram contrariados já na primeira Maratona, que reuniu quase 500 pessoas no Centro Municipal de Cultura. Intercalada por apresentações artísticas a cada 45 minutos, a leitura de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, seguiu das 19h30min do dia 22 de abril às 17h30min do dia seguinte – 22 horas que não impediram sete participantes, os “sobreviventes”, de ficarem até o final.

Enquanto visitavam a Macondo dos Buendía, os maratonistas receberam cartelas para votar na obra que seria lida na edição seguinte. A internet também entrou no baile: “Há essa pré-seleção presencial, e os mais votados vão para a enquete na internet. Temos um blog e uma comunidade no Orkut, o que é legal porque solidifica o envolvimento das pessoas”, considera Cris Cubas, organizadora da Maratona.

Venceu A metamorfose, mas o conto de Franz Kafka foi considerado curto demais para as ambições desafiantes do evento. Em seguida vinha Os ratos, de Dyonélio Machado, que, formando dupla com o clássico kafkiano, ofereceu a oportunidade para que a 2.ª Maratona Literária fosse batizada de “Noite dos Bichos Estranhos”.

Na atmosfera do livro O ambiente foi ornado com insetos de brinquedo, e uma trilha de ratos foi traçada da Av. Ipiranga até o Centro Municipal de Cultura. Tudo para ditar o clima da noite em que Gregor Samsa se transformaria em um “monstruoso inseto” e Naziazeno Barbosa seria atormentado por ratos imaginários.

Já o cenário da 3.ª Maratona foi o de um arraial. Além de café e chimarrão, sempre oferecidos gratuitamente, também circularam pinhão e pipoca – ares de festa junina para Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Mais de vinte apresentações de música,  dança e teatro ocorreram nos intervalos.

As atrações culturais são resultado de parcerias com o Atelier Livre da SMC e com a cooperativa de artistas Cabaré do Verbo: “A ideia é misturar, reunir todas essas manifestações. No mesmo espaço em que oferecemos livros, há também um ateliê de artes plásticas onde disponibilizamos telas, papel, enfim, material para que as pessoas desenhem ao longo da Maratona”, explica Daniel Weller.

Sobreviventes – Intervalos e aperitivos amenizam o desgaste dos maratonistas, mas poucos conseguem acompanhar o livro de cabo a rabo. O número de “sobreviventes”, entretanto, vem aumentando. Da primeira para a segunda edição, houve um salto de sete para 23 participantes que ficaram até a última página. O índice mais interessante mostra que a Maratona está atraindo primeiros-leitores: nenhum dos sete primeiros sobreviventes havia lido Cem anos de solidão, e dos 23 maratonistas que chegaram ao fim de Grande sertão: veredas, 21 nunca haviam completado a obra. Incentivados por uma atividade coletiva, venceram o livro e, de quebra, garantiram o sucesso da festa.

É o caso da fisioterapeuta Denise Xavier Lopes, sobrevivente de todas as edições (inclusive as itinerantes), que se fascinou com o realismo mágico de García Márquez: “É desgastante, sim, passar a noite lendo com um grupo de pessoas que tu nunca viste, mas a experiência é enriquecedora, motivadora. Falando ou lendo, tu tens uma ideia, mas ainda não sentes o que é o evento”, conta.

Além de dar voz a grandes autores, Denise também sai das noites de leitura com suas próprias histórias para contar: “Na terceira edição, já de manhã, estava ocorrendo um programa de literatura francesa, e a plateia esvaziou. Eu estava lendo e não tinha quem chamar. Pensei: ‘se eu parar, acaba. Não pode!’ Li mais de uma hora sozinha, até que chegou um colega e fui relaxar”, lembra.

Futuro nômade A tendência é que a Maratona se torne itinerante, se somando à programação de eventos culturais, a exemplo das participações no Acampamento Farroupilha, na 55.ª Feira do Livro de Porto Alegre e na 7.ª Bienal do Mercosul.

O Parque da Harmonia serviu de palco para a narração de Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto, e de O Analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo. É comum que a leitura ganhe nuances teatrais: as anedotas gaudérias não escaparam da dramatização dos leitores.

Na Praça da Alfândega, o banco de Quintana e Drummond foi o ponto de encontro para as “minimaratonas” pautadas pela agenda de palestras da Feira do Livro. Antes da discussão professoral, a leitura pura e simples. Passaram por ali Allan Poe, Balzac, Euclides da Cunha e L. F. Verissimo.

Para Daniel Weller, que também é aluno do Instituto de Letras da UFRGS, a Maratona resiste à lógica de uma época em que o tempo, como se diz, é “artigo de luxo”: “Não adianta você ter um e-book, uma porrada de livros no bolso, se você não investe 30 horas para ler um Cem anos de solidão. A aposta do projeto é esta: a leitura, neste momento de aceleração, tem que ser concebida coletivamente”.

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A comunicação do corpo

Comentando as apropriações do livro propiciadas pela Maratona Literária, a professora Ana Liberato, do Instituto de Letras da UFRGS, lembra de obras feitas para serem faladas, como a de Shakespeare, cânone da alta cultura ocidental cujas peças são fruto da observação do cotidiano das ruas: “Ele foi um sujeito que, não à toa, transitava pela periferia de Londres. Muito do que há nos textos dele vem da experiência de ter escutado histórias, reaproveitado ditados”, diz.

A cultura popular e os grupos não letrados, portanto, não seriam tão vulgares como supõe a tradição escrita. O foco do trabalho de Ana é a oralidade em si mesma: “A narrativa é uma forma de organizar a experiência, é quando trazemos um passado que está dentro de nós, mas que precisa daquele momento em que alguém pede: ‘conta uma história, me fala da tua vida’. Aí o teu corpo fala, tu te propões a pensar de um outro jeito que não o da escrita”.

À frente do projeto de extensão Quem conta um conto, dedicado a investigar a oralidade em contos populares, Ana chegou ao bairro da Restinga, onde passou a registrar as narrativas orais dos moradores. Para a professora, as convenções educacionais marginalizam a oralidade por força da ideia de que apenas a escrita é sofisticada. Ainda assim, as interlocuções propostas por sua pesquisa repercutiram na grade curricular do Instituto de Letras: em 2006 foi aberta a disciplina “Literatura Oral e Tradicional”.

A palavra, de fato, é efêmera, mas há vantagens: “Quando as pessoas se reúnem, existe uma relação física, não há como ignorar a presença do outro. Como contadora, frequentemente a audiência me faz alterar o ritmo, repetir coisas… É a questão da performance. No texto, tu podes construir a situação de um leitor implícito, mas pouco se preserva dessa dimensão corpórea”, considera. Além disso, a ausência do registro textual pode ser boa: “Em países da África, há guardiães da memória que têm na cabeça uma quantidade incrível de informações. Guardar dentro de si e conseguir passar adiante é a base da retórica, da argumentação”, afirma.

Tivessem a oportunidade de escapar do texto e chegar ao leitor tal como foram ouvidos pelo repórter, o quanto mais não diriam os relatos aqui presos em letras?





Um túmulo de 19 andares

27 12 2009

Reportagem de Demétrio Pereira e Vinicius Fontana.

Fotos: Demétrio Pereira

Os dicionários são unânimes em consagrar o termo “lixo” com reputações como “imundície”, “sujidade” e “sobra”. O endereço de número 18 da rua Marechal Floriano Peixoto, no centro de Porto Alegre, abriga um edifício imundo, sujo e que não deixa de ser uma espécie de resto: à exceção de dois andares, ocupados por moradias irregulares, o prédio está abandonado há quase meio século.

A edificação começou a ser construída no final da década de 50, e tinha como proprietária majoritária a Companhia de Seguros Marítimos e Terrestres Phenix –comprada em 2003 pelo Unibanco AIG Seguros, quando já era “Phenix Seguradora” –, cujo nome batizou o insurgente empreendimento: Edifício Phenix.

As obras pararam na década de 60, poucos anos e dezenove andares depois, em razão de problemas financeiros da incorporadora Arapuã, empreiteira de diversas construções que tiveram o mesmo destino. Ao contrário de seu respectivo mitológico, o prédio não ressurgiu das cinzas. Com a sucessiva compra de salas por diferentes adquirintes, ficou complicado estabelecer a responsabilidade sobre a obra inteira. Hoje, a imponente credencial está esquecida. O local atende por apelidos como “Beco do Mijo”, “QG do crime” ou pelo ofício de “Galeria XV de novembro”. Para nós, “Esqueletão”. Encravado no centro da capital gaúcha, o esqueleto de tijolos à vista magoa a paisagem urbana e não respeita ditados populares: a feiura da fachada não é compensada por beleza interior.

Nas entranhas – No térreo da Galeria XV de Novembro funciona um comércio regular. As paredes estão danificadas pela movimentação dos camelôs da Praça 15, que guardavam suas mercadorias no Esqueletão. Em troca do espaço, os ambulantes davam uma gorjeta para Sônia Figueiredo, proprietária de algumas salas e tratada como síndica do edifício. Essa renda, somada aos alugueis dos locadores, financiou uma reforma exclusiva: o terceiro andar, onde reside Dona Sônia, está ornado com azulejos e conta com antenas parabólicas escapando pelas janelas.


Nosso primeiro contato com os moradores foi com Seu Evaristo, 67 anos e há 20 residindo no local. Entre receptivo e desconfiado, ele elogia a solidez da construção: “A fundação é de pedra de cachoeira. Isso é coisa que não se vê mais”. A informação se confirmou em conversas com R., lojista do térreo (“A ferragem é grossa, e os tijolos foram empilhados deitados”), assim como em registros do Ministério Público, que atestou, em 2007, a robustez da estrutura, apesar de ressaltar a urgência de reformas. A ausência de janelas e manutenção tem favorecido a ação da umidade e o aparecimento de vegetação.

Conhecemos os quatro primeiros andares. Acima, uma grade cadeada bloqueava a passagem. Morcegos e gatos são os únicos a acessar os pavimentos superiores. Onde era para estar funcionando um elevador, amontoam-se móveis quebrados, entulho, garrafas plásticas e caixas de papelão. O espaço por onde o elevador transitaria tem como chão uma montanha de lixo e como teto o céu. As salas estão colonizadas por moscas e demais insetos atraídos pela sujeira e pela escuridão. No teto mesclam-se fios elétricos emaranhados e teias de aranha.

Passeando pelos corredores do segundo piso, somos surpreendidos por um rapaz que se apressa em nos deixar à vontade: “Podem ir entrando”. Ele, afinal, está em casa: não hesita em mijar ali mesmo, emprestando seu perfume à sinfonia de fedores que infesta o ambiente. O que deveria ser um corredor para funcionários está transformado em um esgoto a céu aberto, onde encontramos uma deliciosa sopa de macarrão com feijão servida num cano PVC de 10 polegadas. Perto dali, balançam roupas coloridas, a maioria de crianças, num varal improvisado. Elas foram lavadas com um pouco das doze horas de água diárias – das 7h às 19h, conforme moradores – que abastecem o prédio. Espremem-se nesse período os banhos de todos os residentes, que fazem fila para limpar-se em um banheiro coletivo que não se distingue pela limpeza. A precária porta de madeira apodrecida esconde uma peça de 2 m² disputada por um vaso sanitário e uma ducha Lorenzetti.

Uma parada no aposento do Führer – F. autoproclama-se um maníaco por higiene, motivo pelo qual espera não ser preso: “Imagina vinte nego numa cela, peidando, suando…”. O morador do segundo andar mal tinha dispensado uma prostituta chapada (que não conseguia articular uma palavra sequer) e já nos recebia no seu quarto como se fôssemos velhos amigos. Cigarro entre os dedos, dividindo o colchão encardido com um violão surrado, ele despejou sua história.

Antes de se juntar ao grupo de habitantes do Esqueletão, F. morou na Restinga. “Fugi de lá por causa de uns esquemas. Mataram meu cunhado pensando que era eu. Aí não tinha mais como ficar”. Depois, dividiu apartamento com conhecidos no Morro da Conceição, onde tinha seus banhos monitorados por uma velha tarada. A vida de F. lhe permite tratar a violência com um sarcasmo bem humorado: “Consegui chegar aos 30. Tem que estar preparado pra guerra. Político não tem noção. Se eu reunisse todo mundo que eu conheço, a gente dominava Porto Alegre. Eu iria virar tipo o Marcola, tá ligado?”.

R$ 250 por mês é o quanto F. paga, com a ajuda da mãe, para ficar em um prédio imundo, numa peça improvisada como quarto, oprimida pela umidade e fechada com corrente e cadeado. Ele reclama das condições da construção, mas considera melhor que morar na rua, onde ganha dinheiro como panfleteiro. Uma bolsa com estampa militar pendurada na parede nos chama a atenção: “Tu serviu no exército?”. Ele brinca: “Não. Tô me preparando pra guerra”, e emenda: “O que tenho de diferente do Hitler é que eu não sou racista”. Questionamos o que ele tem de similar com o líder nazista: “Ele era bom, ergueu todo o país dele lá, a Alemanha. O problema é que ele se desvirtuou e saiu matando os semelhantes”. Ele assoa o nariz com um pedaço de papel higiênico que logo amassa e joga no chão, desenhando um sorriso malicioso: “Desculpa a sujeira, mas fazer o quê? É assim mesmo”.

Uma mesa surrada de madeira sustenta sacos de alimentos que esperam para ser postos à chama do fogareiro. Uma torneira aberta despeja água em um balde: os raros momentos de irrigação têm de ser aproveitados. F. quer mudar de vida. Garante conhecer um ex-membro do MST, que lhe segredou detalhes sobre o grupo: “Se tu tá com problema com marginal, tu vai pros acampamentos. Eles te ajudam. Se tu é inteligente, até te pagam os estudos”.  Com todas essas vantagens, quisemos saber por que ele não se une ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra: “Eu até queria, mas tem umas coisas aqui”. Uma das “coisas aqui” é a irmã. Com suspeitas de hepatite, S. foi internada no Hospital de Clínicas. Voltou para casa para pouco depois ser chamada de volta, com a notícia de que estava com o vírus HIV. F. acredita que a moça contraiu a doença no hospital, e não se sente confortável com o assunto. Pergunta se está frio na rua, veste um moletom e sai preparado para a guerra.

Reformas – Nossa primeira visita ao Esqueletão não agradou a “proprietária”. Quando voltamos, uma semana depois, um segurança barrava o acesso ao prédio: “Fiquem tranqüilos no canto de vocês que eu fico aqui no meu”. Tranqüilos, passamos a conversar com os comerciantes do térreo. Para R., que trabalhou durante 20 anos na Galeria do Rosário e está há 10 na Galeria XV de Novembro, toda a receita arrecadada com os alugueis das lojas teria de ser destinada para a reforma do prédio: “Se fecharem o edifício, somos nós que perdemos”.

Perderiam também os moradores, que se veriam sem ter para onde ir. Vistorias da Secretaria Municipal de Obras e Viação, dos Bombeiros, do Ministério Público e de vereadores da capital têm deixado os residentes em alerta. Documentos da administração pública já não fazem cerimônia para tratar o local como “QG do Crime”. Além das moradias irregulares, o prédio tem abrigado atividades ilícitas. Enquanto a Brigada Militar não percebeu qualquer anormalidade entre 2005 e 2007 no Esqueletão, a Polícia Civil, entre os meses de setembro de 2005 e 2006, registrou nada menos que 447 ocorrências – mais de uma por dia. Assaltos, brigas, comércio de entorpecentes, ameaças de morte e recapturas de presos compõem a coleção de delitos. Outro problema são as dívidas. Apenas a Turinvest Imóveis, proprietária de salas no primeiro e segundo andares, deve aproximadamente R$ 800 mil de IPTU e taxa de coleta de lixo.

Não admira que nossa segunda visita tenha sido barrada nem que Seu Evaristo e outros moradores tenham sido reticentes ao prestar informações sobre o prédio. Com seus lares constantemente ameaçados, o que menos lhes convêm é o relato pernicioso de quem foi lá em busca de sujeira e podridão. É sujo, é podre, é lixo, e está assim há tempo demais. Mas não falta quem queira dar um jeito na situação sem tirar dos inquilinos o pouco que têm.

Diante da ameaça de fechamento do edifício, comerciantes formaram a Associação dos Proprietários e Inquilinos de Lojas do Térreo da Galeria XV de Novembro, que já apresentou orçamento para a recuperação da obra. Em 2006, a Associação aceitou a proposta de reforma da Gegler Engenharia, orçada em R$ 32 mil.

Atualmente, está sendo realizado um laudo estrutural para a adequação do prédio às normas de prevenção de incêndio, algo que vinha sendo exigido há pelo menos três anos. Proprietários de salas até o 8º piso têm realizado obras de acabamento interno, como a instalação de alvenarias, rebocos e fiações elétricas. Tudo indica que agora, sem o trânsito intenso dos camelôs, as ocorrências criminais irão diminuir.

O aspecto ainda é cadavérico, mas a união de esforços de gente interessada pode trazer ao Esqueletão alguns órgãos vitais, pele, cabelos e de repente até um traje apresentável. E aí não haverá outro nome que lhe caiba: na Marechal Floriano, número 18, estará o Edifício Phenix.

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A identidade de alguns entrevistados foi preservada ora atendendo a pedidos ora reconhecendo a delicadeza das informações prestadas.






Schopenhauer e a fantasiosa arte de pensar por si mesmo

22 12 2009

Colecionando metáforas, Arthur Schopenhauer, ao longo do segundo capítulo (Pensar por si mesmo) de A Arte de Escrever, estabelece uma rígida distinção entre o conhecimento adquirido através da leitura e o apreendido pelo “pensamento próprio”, decretando a superioridade deste sobre aquele. O que lemos não passaria de uma cópia imperfeita do que outros já pensaram por si sós, como se a leitura creditasse uma medalha a quem não participou da competição, não vivenciou o percurso até a linha de chegada.

Esse “atalho”, segundo o autor, impede o estudioso de cultivar o conhecimento verdadeiro, aquele sobre o qual se pode dizer que se sabe algo, realmente.

Apesar de simpatizar com o que propõe o filósofo alemão, prefiro expor meus apartes. É evidente que quem visitou um país pode falar com mais propriedade e compreender com maior amplitude a realidade local do que o assíduo interessado que tanto lê sobre onde nunca esteve – para pegar emprestado apenas uma das diversas roupagens que Schopenhauer apresenta para elucidar uma mesma problemática. Ainda assim, o que são nossas experiências cotidianas senão leituras do mundo, de uma realidade que nos chega mediada, assimilada após passar por diversos filtros simbólicos?

Apenas com o que a cultura e as tradições instituem, o mundo nos é apresentado como um livro, escrito por muitos autores invisíveis, que não assinaram a obra. O intelecto humano é baseado em associações e, desde o nascimento, somos bombardeados por signos pré-fabricados, necessários para o bom entendimento de uma realidade complexa, mas provas de que o “pensamento próprio”, tal como idealizado por Schopenhauer, é uma ilusão. Há tantos aspectos da realidade organizados na mente humana por imposição do meio – como o próprio idioma que falamos – que chega a ser pretensioso distanciar tanto o conhecimento observado do lido. Ambos sofrem mediações, cada um à sua maneira. A leitura é necessária. Não deve servir somente quando “as fontes do pensamento próprio secam” (pg. 42). É necessária porque não há tempo nem razão aparente para a redescoberta de saberes disponíveis e já constituídos – como as leis da geometria.

A argumentação forte do autor é eficaz por fazer o leitor relacionar o ato de ler a todo momento a algo fraudulento e aleijado, prática que desordena o pensamento e o torna semelhante a uma música na qual não se escuta o tom fundamental – mais uma das alegorias utilizadas pelo filósofo, mais um dos dedos que ele utiliza para apertar a mesma tecla. De fato, são essas exemplificações sagazes que dão maior valor à tese defendida no capítulo e fazem com que ela se torne palpável.

Ainda que a prática da leitura não seja o tão-pouco defendido por Schopenhauer, está claro que a originalidade fica comprometida com o excesso de erudição, e essa constatação é o maior êxito do capítulo. A quebra de paradigmas, o confronto de idéias e a contestação da ordem vigente são fatores determinantes para o enriquecimento do saber, e são apenas alcançados a partir da originalidade. Não acredito em pioneirismos – acredito, sim, em conseqüências inéditas, frutos da associação de saberes já existentes. E esses saberes, muitas vezes, estão escritos, paginados, impressos. Surge aí meu outro aparte: Schopenhauer desconsidera a capacidade do leitor de contestar e alimentar noções contrárias sobre aquilo que lê. Uma idéia inteiramente nova pode surgir a partir do contato com idéias alheias.

Em todo caso, considero proveitoso o que o pensador alemão escreve no referido capitulo. Essencialmente, se trata de um texto inteligente. Tenho como verdade, consideravelmente solidificada agora pelo autor (para isso ler também serve), que é mais válida a medalha conquistada após a experiência de percorrer todo o trajeto até o pódio, etapa por etapa. O homem, sem dúvidas, sabe mais quando vive mais. Mas isso não faz da leitura um processo fajuto de aquisição do conhecimento. Se foi afeito a metáforas o falecido Schopenhauer, lá vai a minha: enquanto os gênios misturam ingredientes e levam ao forno uma boa pizza, seus leitores descongelam pizzas de supermercado. Mas cozinham. Pior, porém mais rápido e a menor custo.





Calexico – Two Silver Trees

21 12 2009

Direto de um dos melhores álbuns de 2008, o imperdível Carried to dust.





A dialética das listas

5 12 2009

Pressuposto para entender como são feitas as listas de “tops” é pensar sobre o porquê de elas existirem. A resposta é simples e não pede muito raciocínio: as pessoas gostam de listas. Rankings são atraentes, em primeiro lugar, por simplificarem uma realidade complexa. Nada melhor do que reduzir e organizar o caos do mundo, o fluxo absurdo de informação e a completa desordem em uma lista aparentemente coerente. É gostoso observar uma tabela de “melhores bandas do ano” porque, ao ser interpretada como natural, ela poupa o trabalho que o leitor teria caso precisasse escutar e analisar tanto material, além de – aí vem o principal – canalizar o público para o consumo de bens simbólicos e culturais específicos. É gostoso, em suma, se deixar entregar às dicas arbitrárias dos rankings, que rebentam as correntes impostas por uma (quase sempre) inútil liberdade de escolha.

Numa comparação grosseira, trata-se de caso semelhante ao que se dá com o prazer de se atirar aos braços da religião. Lá, respostas irrefutáveis para as mais intrigantes perguntas – quem crê é premiado com a felicidade eterna; aqui, setas que indicam as canções certas a serem escutadas – quem engole é dispensado do inferno musical das ofertas infinitas.

Listas são agradáveis, portanto. Duvido que alguém já não tenha se deixado a folhear por um bom tempo, e com honesto interesse, algum desses livros do estilo “1001 lagos para atirar pedrinhas antes de morrer”. E que ansiedade não nos invade à iminência de descobrir o soberano primeiro colocado! É dessa euforia coletiva em torno das listas que o mercado editorial tira proveito e, com isso, reabastece o mercado fonográfico.

De qualquer forma, a coisa perde parte de sua atmosfera impositiva quando compreendemos que toda lista é essencialmente subjetiva (um amigo meu, viciado em rankings de filmes, diz que a graça das listas está, justamente, na possibilidade de discordarmos delas e mandá-las ao diabo) e que, não existissem esses “tops”, estaríamos recorrendo a referências outras. Ainda assim, a indicação de um amigo, por exemplo, é mais espontânea, e carece daquilo que compromete a inocência (ou a “imparcialidade”, algum mais idealista dirá) de um ranking de revista: o critério comercial.

E é assim que chegamos ao como. Não dissecarei os processos técnicos através dos quais os veículos de comunicação criam suas listas. Primeiro porque não sei nem quero saber; segundo porque seria inutilmente óbvio. O interessante de se notar aqui é que esses rankings de “melhores da temporada” tendem a reproduzir aquilo que, durante a tal temporada, foi mais tocado nas rádios ou mais vendido. Aqui não vai nenhuma novidade: desde sempre, a razão mesma para a existência das listas foi, como já observado, realimentar o mercado fonográfico, do qual dependem as publicações sobre música.

Há uma expectativa em relação a um “200 melhores solos de guitarra”, e os meios de comunicação cuidam para não frustrar as pessoas: oferecem exatamente aquilo que está sendo esperado de antemão. Experimentem deixar Hendrix fora dos dez primeiros! Ah, trata-se dos melhores álbuns de todos os tempos? Ok Computer e Nevermind são obrigatórios, junto a muito Beatles, Stones e Pink Floyd, é claro.

Quais são os valores-notícia do jornalismo musical? Quem foi o Criador que soprou as palavras dessa Bíblia cujos versículos ninguém ousa alterar? Bom, esse deus saiu do barro e da costela de uma equação em que se misturam a crítica musical, a linha editorial do veículo e a força da aclamação pública ou, em termos mais objetivos, do mercado.

Atualmente, essa equação tem sido modificada por uma efemeridade tipicamente pós-moderna: bandas vêm e vão como tendências da alta costura, e falar em “ídolos” só faz sentido em programas de calouros. Essa dinâmica gera uma demanda permanente por novidade, e temos aí uma inesperada vantagem, que é a de oxigenar a cultura. Acrescentada a isso, a internet coloca o público como agente de um processo que antes era monopólio das empresas de comunicação. O resultado não chega a ser o império da originalidade, mas, antes, um papel mais acentuado da crítica musical, que passa a resistir a velhas fórmulas e apostar em boas surpresas.

Se digo que não há originalidade, é porque a padronização permanece. Separei quinze listas de melhores álbuns (ou mais tocados) de 2008, todas de revistas ou sites notáveis (Mojo, NME, Uncut, Last.fm, Pitchfork, Q Magazine, The Observer, Metacritic, The Sunday Times, Blender, Filter, The New Yorker, Paste Magazine, Stereogum e Spin). Dentre esses quinze rankings, os lançamentos do Fleet Foxes e do TV on the Radio aparecem em dez. Bon Iver, que disputou a liderança de várias listas com o Fleet Foxes, figurou em nove. Vampire Weekend, oito. Portishead, sete. Também foram frequentes grupos e artistas como Nick Cave & The Bad Seeds, MGMT, Glasvegas, Deerhunter e Kings of Leon.

Ou seja, quinze equipes (e até softwares!) diferentes, de veículos diferentes, propondo-se a listar o que houve de melhor na produção musical de todo o mundo durante um ano inteiro, repetiram-se de uma forma que beirou o constrangedor. Cabe a ressalva de que se trata de publicações que privilegiam um pop de bom gosto, ou simplesmente o que é bom o suficiente para ser apreciado como arte mas digerível o bastante para que seja popular entre uma classe média esclarecida. Não há ironia aqui. Esse público é justamente o que abre espaço para a produção independente (coloco em itálico porque anda corrente o hábito meio babaca de relativizar o termo indie) e subversiva, e foi ele que alavancou projetos doidos como Beirut e Sigur Rós.

No caso de 2008, o folk montanhês do Fleet Foxes mereceu, de fato, ser consagrado pelo pódio mais alto em boa parte das listas, apesar do estranhamento de quem esperava algo mais óbvio na pole position. Tanto Portishead quanto TV on the Radio e Nick Cave & The Bad Seeds, quase onipresentes nas toplists do ano passado, são pauladas estéticas da melhor espécie. Por um lado, isso é bom para desafiar modelos já desgastados; por outro, é tímido demais para ser capaz de surpreender e realmente sugerir algo desconhecido pelo público. Há quatro anos do final da década já se antevia que Arcade Fire, Arctic Monkeys e Strokes seriam figuras certas na lista da NME de melhores álbuns dos anos 2000. Não deu outra.

Não é o caso de tecer censuras. Inovar, além de ser custoso, é arriscado. As pessoas contestam tudo aquilo que frustra expectativas prévias. Qualquer veículo midiático que se pretenda grande trará para suas toplists artistas com visibilidade igualmente grande, que não escapem a uma certa “unanimidade presumida”, não extrapolem os limites ou desafiem a tolerância da ordem estética estabelecida. É assim que são feitas as tais listas, e todos o sabem. Prova disso é que na tua lista de melhores de 2009, indie que me lê, Muse e Wilco têm lugar garantido. NME e Pitchfork, garanto, logo te copiarão, e cá teremos a evidência do quão previsível essa coisa toda é. Mas que listas são legais, ah, se são!





Cais

27 11 2009

Imagino nós dois num desses navios enferrujados e semi-abandonados, dividindo a brisa fresca e o infinito céu nublado com eventuais gaivotas. A velocidade calma do vento ditaria o compasso lento do nosso envelhecimento despreocupado, e a solidão manhosa seria o desassombro da nossa juventude eternamente devassa. À noite, coseríamos estrelas em fogo baixo e obedeceríamos a linguagem do corpo, revolvendo-nos na música das águas. Zombaríamos da nossa fração de vida, ergueríamos taças à finitude, e faríamos gargarejo com o suco das maçãs do Éden. Ergui âncoras; regressei para te contar.





A ousada festa da estética

18 11 2009

Reportagem publicada no Jornal da Universidade.

TEXTO DEMÉTRIO PEREIRA E LUCIANE COSTA

FOTOS FLÁVIO DUTRA

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Tecnologias audiovisuais ocupam um espaço maior em relação a edições anteriores da Bienal

Olhares intrigados é o que mais se vê pelos pavilhões e corredores da 7.ª Bienal do Mercosul. Divididas Entre armazéns do Cais do Porto, o Santander Cultural e o Museu de Arte Ado Malagoli do Rio Grande do Sul (MARGS), as sete exposições desta edição, intitulada Grito e Escuta, mantêm a tradição de provocar estranhamento. Mas, como alertou o presidente da Fundação Bienal do Mercosul, Mauro Knijnik, na abertura do evento para a imprensa, esta é uma bienal “diferente, não convencional”. Todas as edições, de certa forma, fugiram do convencional (Voltaire Schilling que o diga). Ainda assim, neste ano há novidades. Com um corpo de curadores composto quase completamente de artistas (a exceção é a crítica argentina Victoria Noorthoorn, que forma o par de curadores-gerais com o chileno Camilo Yañez), Grito e Escuta tem como vértices mais característicos a interação com o público e a cidade, a proposta de pensar os processos de criação artística e um espaço nunca antes tão vasto para as tecnologias audiovisuais, como filmes, programas de computador interativos e fones de ouvido que pendem do teto.

São sete mostras pautadas por diferentes conceitos: a transparência e a intimidade do pensamento do artista através do desenho (Desenho das Ideias, no MARGS); o processo artístico e a relação do artista com as obras (Biografias coletivas e Ficções do invisível, nos armazéns A5 e A4, respectivamente); a estranheza e a ideia de instabilidade (Absurdo, no Armazém A3); o diálogo com a cidade e o espaço público (Texto público, no Armazém A5 e em diversos pontos de Porto Alegre); vídeos e trabalhos de projeção luminosa (Projetáveis, no Santander Cultural) e a dinamicidade das obras representada em modificações programadas para ocorrer ao longo da mostra (Árvore Magnética, no Armazém A6).

Escambo de desejos – Evidentemente, essas rápidas descrições não fazem justiça à riqueza e à diversidade do que se exibe em cada exposição. No trabalho A Grande Troca, alocado em Biografias Coletivas, o francês Nicolas Floc’h apresenta objetos feitos de madeira que correspondem, em tamanho real, aos desejos materiais de adolescentes do Morro da Cruz: instrumentos musicais e fardamento para uma banda, goleiras e bola para o futebol; de residentes do edifício da Comunidade Autônoma Utopia e Luta: material para a pintura do prédio; e de alunos e funcionários de uma escola do bairro Lami: uma van para suprir a carência de transporte coletivo no bairro.

Os próprios entrevistados pelo artista construíram os objetos, e a ideia, que era a de que o público da Bienal os trocasse por seus respectivos “reais”, já está consumada: curadores e representantes de museus trocaram quase tudo, inclusive a van.

Outra proposta que trabalha com a questão do desejo é Ponto de Gravidade, do coletivo Provisório Permanente, formado pelos argentinos Victoriano Alonso, Eduardo Besualdo, Hernán Soriano e Pedro Wainer. Em locais específicos da cidade, tiras de papel são distribuídas para os passantes. Estes escrevem o que desejam nos bilhetes e os colocam em balões, que são lançados ao céu, carregando anseios anônimos que passeiam no ar até aterrissarem. Como o endereço eletrônico dos artistas está impresso nos papéis, quem encontra as bexigas entra em contato, e os pontos de decolagem e pouso são marcados em um mapa de Porto Alegre situado no armazém A5. Na última vez em que a reportagem do JU esteve lá, um balão lançado próximo ao Mercado Público recém havia sido encontrado em Viamão.

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Réplicas de prédios públicos são pintadas livremente em Monumentos Vandalizáveis, de José Carlos Martinat

Arte-camaleão – Em cima do Palácio do Itamaraty, o Congresso Nacional. Amontoam-se também o prédio do Ministério da Justiça, o Centro Administrativo de Porto Alegre, a Catedral de Brasília, o Museu de Arte e a Pinacoteca de São Paulo, as logomarcas do Banrisul e da Gerdau. No início da Bienal, a brancura dessas maquetes gigantes, confeccionadas pelo peruano José Carlos Martinat, ainda esperava a tinta dos pincéis e sprays convenientemente disponibilizados para o público. Pouco tempo após a abertura à visitação (e participação), esses “símbolos do poder” já estavam completamente coloridos de rabiscos, assinaturas, carimbos, declarações de amor, protestos, desenhos, versos de paz e xingamentos. A cada dia, a obra Monumentos Vandalizáveis é modificada por um público cuja espontaneidade costuma ser reprimida por alguns desses poderes, que têm suas casas pintadas no armazém A6 do Cais do Porto.

Em Árvore Magnética, trabalhos como o de Martinat passarão por pelo menos dez transformações. Isso tanto insere o tempo no eixo de compreensão das obras como demonstra que a arte não é estanque e convida a um retorno constante do público – “e da imprensa”, completa Mario Navarro, artista chileno encarregado da curadoria da exposição. “Esse conceito foi desenvolvido especialmente para a mostra e busca permitir ao público uma visão mais ampla do período que ela dura”, observa.

Para ele, a proposta está inscrita em uma ideia segundo a qual a Bienal não é apenas entretenimento: “Pensamos que se pode desenvolver conhecimento em função das obras de arte. No caso da Árvore Magnética, tem a ver com o fato de o artista sempre estar pensando que sua obra está em desenvolvimento, e não definida”, explica.

O também chileno Diego Fernandez, em Protocolo Ouro Preto, articula essas modificações para tratar da responsabilidade política da arte. São diversas salas contíguas, acessíveis apenas depois de a parede que as separa ser derrubada. No interior de cada um desses espaços são exibidos vídeos – na primeira, filmagens de Porto Alegre remetem, esteticamente, ao documentário O triunfo da vontade, em que a cineasta Leni Riefenstahl retrata a convenção do Partido Nazista de 1934; na última, serão mostradas as cenas da depredação de todas as paredes.

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A duna determina os contornos da imagem em Cair em si, de Márcia X

Dialogando com o absurdo Uma mulher de cabelos compridos enche calmamente copos com um líquido esbranquiçado que escorre de uma concha. A projeção é feita em uma das dunas formada pela areia depositada no armazém A3 por vinte caminhões. Os alunos da Escola Estadual Maria das Neves Petry, de Novo Hamburgo, observam com curiosidade a ação da artista carioca Márcia X, falecida em 2004, e autora de Cair em si, que integra a mostra Absurdo – uma das que mais impacto causa no público.

Lá, a mudança também faz parte da ordem do dia: o espaço e o suporte das obras se alteram ao longo do evento. Com curadoria da brasileira Laura Lima, a mostra tem como foco a instabilidade que é expressa, por exemplo, nas marcas na areia feitas pelo caminhar dos visitantes e pelas brincadeiras esculturais das crianças, que instigam o questionamento sobre os limites formais da arte.

A organização da Bienal, por meio de seu Projeto Pedagógico, trouxe escolas das redes pública e articular do estado para as dunas do armazém A3. Frente ao absurdo, crianças e adolescentes demonstravam espanto e excitação em relação a imagens tão diferentes do que estão acostumados. A estudante de Novo Hamburgo Miquele Cardoso, ao saber que viria a Porto Alegre para o evento, imaginou algo semelhante às pinturas que vê na telenovela Caras e Bocas – a concepção de arte que conhecia até então.

Com o auxílio dos mediadores, os alunos eram incentivados a pensar naquilo que observavam, ao que, com frequência, surgiam questionamentos como “qual é o objetivo desta obra?”. A resposta vinha com um convite à reflexão: “Vocês interpretam!”. Segundo a professora Maria Lucia Cattani, chefe do Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS, é característica da arte – não só da contemporânea – não ser algo fechado, permitindo diferentes olhares sobre si.

A argentina Marina de Caro, curadora do Projeto Pedagógico da Bienal, esclarece que as crianças devem ter um contato particular com as obras antes de terem sua interpretação mediada: “A proposta é que eles entendam as idéias primeiro, por meio de uma experiência, e, depois, comecem a receber informação.

Os próprios professores podem mediar porque eles sabem o que estão trabalhando com os pequenos, com quais áreas podem relacionar: a ideia de transformação do meio ambiente, da geometria, da história… São ferramentas de pensamento, e trata-se de um pensamento transversal, não linear”, considera.

Em relação aos demais visitantes, a mediação leva em conta um observador com olhar refinado: “Procuramos considerar um público que tem conhecimento, que maneja muita informação e que tem a possibilidade de falar. Promovendo um trabalho com fichas práticas, também há como associar as obras a diferentes áreas do saber. Então não é mediar a arte em si mesma, mas sim em diálogo com a realidade, com outras disciplinas, com o saber próprio de cada espectador”.

 

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Brincadeiras na areia interagem com obras e reforçam ideia de instabilidade proposta pela mostra Absurdo, no Armazém A3 do Cais do Porto

 

 

No concreto da cidade e no intangível do virtual

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"A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica"

Uma das características desta e das outras bienais é levar a arte a espaços não convencionais, empreendendo uma invasão da cidade. Claro, há mostras no MARGS e no Santander Cultural, locais cuja função evidente é abrigar exposições, mas as obras ganham também os armazéns do Cais, o Mercado Público, o Parque da Redenção e as ruas da cidade.

O artista pernambucano Paulo Bruscky, no primeiro dia da Bienal, realizou a performance Poesia Viva, na qual voluntários vestiram camisetas com letras que formavam palavras aleatórias. No trajeto entre o Mercado Público e o MARGS, a arte invadiu o cotidiano do movimentado Centro de Porto Alegre. Já o antigo palacete Casa dos Leões, localizado na Rua dos Andradas, ganhou novas formas sob a intervenção do paulista Henrique Oliveira. Pelas portas e janelas da Casa Monstro – como ficou conhecida a instalação Tapume –, se espalha uma massa disforme, semelhante a um tumor. Feita de compensado, ela chama a atenção de quem passa pela calçada.

As intervenções no dia a dia, porém, não duram apenas o período das bienais. Quase todas deixaram monumentos como herança. As “escadarias” (Cascata, de Carmela Gross) e o “pier” (Olhos Atentos, de José Resende), que se tornaram ponto de encontro na orla do Guaíba, foram presentes de edições passadas, assim como a SuperCuia, de Saint Clair Cemin, descrita recentemente pelo diretor do Memorial do Rio Grande do Sul, Voltaire Schilling, como “a exaltação de um superúbere de uma vaca premiada”.

Publicado no jornal Zero Hora, o artigo do historiador, A Capital dasMonstruosidades, trouxe para a arena pública uma polêmica nunca resolvida. A crítica à “feiúra” de alguns monumentos da cidade foi recebida com os aplausos de quem acredita na arte como representação do belo e com as vaias daqueles que defendem a multiplicidade, a provocação e o estranhamento atribuídos à arte contemporânea ainda que a renovação estética também tenha sido promovida pelo Modernismo. Na Bienal do Mercosul, há uma evidente hegemonia da segunda concepção, e é ela que permite a incorporação artística de novos suportes e tecnologias.

A mostra Projetáveis, por exemplo, reúne peças inscritas via Internet. A seleção, inovadora por si só, foi realizada a partir de um edital aberto. Entre vídeos, jogos interativos e performances de VJs e DJs, o requisito era a possibilidade de reprodução na web. Dos mais de 800 candidatos de cerca de cinquenta diferentes países, foram selecionados 19, que ocupam o prédio do Santander Cultural e podem ser vistos pelo site www.bienalmercosul.art.br/projetaveis

Computadores e projetores parecem uma transgressão, mas a professora do Instituto de Artes da UFRGS Maria Lucia Cattani, que participa da Bienal na mostra Desenho das Ideias, lembra que a arte sempre foi mediada por ferramentas: “O pincel já era uma tecnologia. Quanto a esse uso, que pode ser visto em Projetáveis, o tempo vai dizer se permanece ou não”.

Em Moonwalk, do tcheco Martin Kohout, por exemplo, vemos uma cena criada a partir de repetitivos carregamentos de imagens vazias do site Youtube, compondo uma pirâmide de barras de streaming. Já Drawing for Filó, do eslovaco Oto Hudec, reproduz em uma parede o relato de uma cozinheira angolana que mora em Portugal, enquanto, simultaneamente, é projetado no chão o desenho de uma paisagem que vai se formando conforme a descrição da entrevistada sobre a aldeia em que cresceu.

Se em anos anteriores as Bienais do Mercosul estabeleceram uma tradição de aproximação com o público, a sétima edição traz no nome essa intenção de comunicação, de diálogo. A “Grito e Escuta” não seria exagero acrescentar “Resposta”. Talvez por isso a proposta venha acumulando sucessos de crítica e visitação. As vozes do Mercosul, reunidas em Porto Alegre, têm encontrado muitos ouvidos dispostos a escutar.

 

O lado B da Bienal

Até mesmo o que é diferente e desafia os padrões tem o seu lado B. A partir de uma iniciativa de jovens artistas gaúchos, a maioria deles estudantes do Instituto de Artes da UFRGS, foi criada em 2007 a Bienal B. Paralela à do Mercosul, ela está em sua segunda edição e tem alcançado a meta de divulgar a arte  regional. Em 2009, são obras de 266 artistas expostas em 38 espaços, que vão de galerias a bares, tendo como centro de convergência um shopping center. Assim, o público esbarra na arte e é convidado a  dialogar com ela.

Segundo a curadora do evento, a artista plástica Isabel de Castro, a ideia surgiu da percepção de que havia uma demanda tanto de pessoas querendo expor quanto de um público disposto a acompanhar, apesar da recorrente escassez de visitantes em mostras de artes visuais: “Isso está relacionado com a fruição da obra, pois é diferente de um show de rock, em que uma banda pequena toca para milhares de pessoas ao mesmo tempo. A gente ainda não tem essa cultura de que um museu, por exemplo, pode atrair muita gente e que isso terá um retorno. Temos de criar isso”, justifica.

Profissionalizar o artista plástico regional é um dos objetivos mais fortes da curadoria, formada por professoras. A intenção é abandonar o romantismo do ofício e ir atrás de espaço – por isso, cada inscrito deveria articular o local para expor seu trabalho. As propostas que, por algum motivo, ainda não estavam maduras e não eram bem visualizáveis, receberam um parecer do que poderia ser melhorado e o incentivo a levar adiante o projeto, mesmo que desvinculado da Bienal B.

Vale dizer que a Bienal B não pretende se opor ao grande evento que movimenta a capital gaúcha a cada dois anos. É apenas uma forma de aproveitar a visibilidade de um momento no qual a cidade vive para as artes visuais: “Nós somos um movimento independente e queremos somar. A Bienal do Mercosul é internacional, há uma troca com a comunidade, mas não é propriamente do artista daqui. A Bienal B entra como contribuição para Porto Alegre e para a produção regional”, diz Isabel.





Tom Wolfe no Fronteiras do Pensamento: fail

17 11 2009

Não foi desta vez

Acabo de chegar da palestra do Tom Wolfe na 4ª edição do Fronteiras (agora Braskem) do Pensamento. O Salão de Atos da UFRGS não lotou, mas recebeu um público que fez justiça à presença da “lenda viva do jornalismo”. O que posso dizer é: ainda bem que não paguei para entrar. Quem deixou parte de sua fortuna no ingresso deve ter saído irritado. Não discuto os méritos de Wolfe como escritor ou jornalista. É dando uma de filósofo da contemporaneidade que a coisa desanda.

Enfiado em seu terno eterna e impecavelmente  alvo, Wolfe foi o gentleman que dele se espera. Simpático, engraçado – as piadas foram todas prejudicadas pela tradução, que inevitavelmente chuta para longe o timing e o vigor da comédia – e carismático como todo bom ancião, o precursor do new journalism acabou fazendo uma bagunça narrativa tão grande que duvido que alguém tenha entendido bem o que ele quis dizer.

Começou promissor: “Estamos vivendo o fim do capitalismo como o conhecemos, o fim do mundo como o conhecemos”, e o fim do sistema solar, da galáxia, do universo e assim por diante, tal como os conhecíamos. Para Wolfe, há três principais mudanças, e elas são tão confusas e similares que uma das perguntas do público – houve um espaço para perguntas, é claro – foi algo como: “Ok, a terceira mudança eu lembro, mas quais são as duas primeiras mesmo?”. Eu anotei:

1ª Grande Mudança: carnaval sexual. As universidades americanas (“United States” foi o termo mais ouvido) se tornaram playground de orgias e demais sacanagens.

2ª Grande Mudança: neurocientistas e biólogos. Eles não acreditam em livre-arbítrio, acham que fomos programados. Numa conferência cheia desses cientistas, Wolfe disse ter levantado a mão para encerrar uma discussão sobre o crime em uma sociedade na qual os indivíduos são fantoches de seus próprios genes: “Se somos todos programados, você e sua teoria também são. Desse jeito, não poderemos confiar em nada”. Oh yeah, xeque-mate!

3ª Grande Mudança: crise generalizada dos valores. Proponho um exercício mental: retire a Monalisa do quadro de Da Vinci e imagine a moça do sorriso misterioso atacando de personagem de um desenho animado da Disney. Nada respeitoso, não é? Foi isso que Wolfe fez com Nietzsche. Recortou coitados trechos que descansavam em paz entre os aforismos do filósofo alemão e colou em sua fala descontextualizada. Como resultado, Wolfe conseguiu o inédito feito de citar Nietzsche para LAMENTAR o estremecimento dos valores.

Bem se nota a enxurrada de problemas nessa análise. Só para começar, falar em livre-arbítrio é entrar num dos debates mais espinhosos que a teologia cristã é obrigada a enfrentar. Onisciência e livre-arbítrio são, simplesmente, incompatíveis. Uma lógica quase matemática demonstra isso com facilidade. Além disso, a Biologia não exclui a Sociologia, que está aí para ensinar que somos, também, seres sociais e históricos. Se é que somos pré-programados – e somos, ora, qual o problema em admitir? -, a realidade é capaz de nos mudar assim como temos a capacidade de operar sobre a realidade.

Discurso ideológico, portanto, o de Wolfe. E cheio de mágoas. Para ele, só ateus entram no clube dos intelectuais bacanas – of the United States.  Mas houve bons momentos. Ele avacalhou: disse que todas as pinturas de Picasso têm fundo cinza porque o artista não tinha noção de perspectiva, que Matisse não sabia desenhar mãos e que o cubismo é muito conveniente por permitir que o sujeito pinte os dois olhos num mesmo lado da cara, sem se preocupar com profundidade. Para Wolfe, há uma equação para isso: criatividade + falta de habilidade. Chamarei de “equação-Bienal”. Ele usou a equação-Bienal, que há pouco havia destruído modernistas, para atacar as instalações bisonhas dos artistas contemporâneos. Enfim, uma gozação generalizada. Foi a parte boa. Também ri com suas considerações sobre o “marxismo rococó”, para o qual o novo proletariado são os animais em extinção.

Meus fones de ouvido estavam uma merda, e meus ouvidos não quiseram entender bem as passagens em que ele falou sobre Proust e Joyce (aparentemente, acusou ambos de serem monótonos, especialmente “Ulysses”) e elogiou Rimbaud e Baudelaire.

Inacreditável mesmo foi o final, em que, para não deixar a plateia com “sentimentos negativos”, o escritor lembrou de uma época histórica “muito parecida com a nossa, o período mais libertino da Inglaterra”, que, para alívio geral, “foi seguido pela era vitoriana” (!). Ou seja: para não deixar o pessoal cabisbaixo com um futuro tenebroso, Wolfe anunciou a volta de um moralismo rígido, ridículo, solene e que só encontra lugar no nosso tempo nas carruagens luxuosas que se oferecem para turistas no Central Park e na afetação de conto-de-fadas das monarquias europeias. Assim tu me matas de alegria, Tom Wolfe! Porra, tudo bem, o cara tem 78 anos, nessa idade já se pode idealizar o passado.

O Juremir Machado, apresentador mais atrapalhado impossível, abriu a sessão de perguntas com uma questão sobre Kapuzinsky. Wolfe enrolou e não respondeu porra nenhuma. Depois, estudantes de jornalismo e jornalistas alternaram perguntas estúpidas como “a internet vai acabar com o jornalismo impresso?”, “o que você fez para descrever com tanta precisão a sociedade americana em ‘Fogueira das Vaidades’?” e a inacreditável “que semelhanças você vê entre new journalism e jornalismo literário?”. Antes de um constrangedor desrespeito do público, que começou a debandar tão logo Juremir Machado ensaiou uma deixa final, Tom Wolfe teve tempo de dizer que os blogs comprometem a noção de apuração jornalística (são baseados em boatos – isso não deixa de ser verdade) e que 95% das TVs americanas se pautam pelos jornais impressos.

Na saída, houve sessão de autógrafos. Se a palestra foi completamente anacrônica e frustrante, a assinatura do Tom Wolfe compensa por ser muito afudê:

Assinatura do Tom Wolfe

Assinatura do Tom Wolfe