A ousada festa da estética

18 11 2009

Reportagem publicada no Jornal da Universidade.

TEXTO DEMÉTRIO PEREIRA E LUCIANE COSTA

FOTOS FLÁVIO DUTRA

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Tecnologias audiovisuais ocupam um espaço maior em relação a edições anteriores da Bienal

Olhares intrigados é o que mais se vê pelos pavilhões e corredores da 7.ª Bienal do Mercosul. Divididas Entre armazéns do Cais do Porto, o Santander Cultural e o Museu de Arte Ado Malagoli do Rio Grande do Sul (MARGS), as sete exposições desta edição, intitulada Grito e Escuta, mantêm a tradição de provocar estranhamento. Mas, como alertou o presidente da Fundação Bienal do Mercosul, Mauro Knijnik, na abertura do evento para a imprensa, esta é uma bienal “diferente, não convencional”. Todas as edições, de certa forma, fugiram do convencional (Voltaire Schilling que o diga). Ainda assim, neste ano há novidades. Com um corpo de curadores composto quase completamente de artistas (a exceção é a crítica argentina Victoria Noorthoorn, que forma o par de curadores-gerais com o chileno Camilo Yañez), Grito e Escuta tem como vértices mais característicos a interação com o público e a cidade, a proposta de pensar os processos de criação artística e um espaço nunca antes tão vasto para as tecnologias audiovisuais, como filmes, programas de computador interativos e fones de ouvido que pendem do teto.

São sete mostras pautadas por diferentes conceitos: a transparência e a intimidade do pensamento do artista através do desenho (Desenho das Ideias, no MARGS); o processo artístico e a relação do artista com as obras (Biografias coletivas e Ficções do invisível, nos armazéns A5 e A4, respectivamente); a estranheza e a ideia de instabilidade (Absurdo, no Armazém A3); o diálogo com a cidade e o espaço público (Texto público, no Armazém A5 e em diversos pontos de Porto Alegre); vídeos e trabalhos de projeção luminosa (Projetáveis, no Santander Cultural) e a dinamicidade das obras representada em modificações programadas para ocorrer ao longo da mostra (Árvore Magnética, no Armazém A6).

Escambo de desejos – Evidentemente, essas rápidas descrições não fazem justiça à riqueza e à diversidade do que se exibe em cada exposição. No trabalho A Grande Troca, alocado em Biografias Coletivas, o francês Nicolas Floc’h apresenta objetos feitos de madeira que correspondem, em tamanho real, aos desejos materiais de adolescentes do Morro da Cruz: instrumentos musicais e fardamento para uma banda, goleiras e bola para o futebol; de residentes do edifício da Comunidade Autônoma Utopia e Luta: material para a pintura do prédio; e de alunos e funcionários de uma escola do bairro Lami: uma van para suprir a carência de transporte coletivo no bairro.

Os próprios entrevistados pelo artista construíram os objetos, e a ideia, que era a de que o público da Bienal os trocasse por seus respectivos “reais”, já está consumada: curadores e representantes de museus trocaram quase tudo, inclusive a van.

Outra proposta que trabalha com a questão do desejo é Ponto de Gravidade, do coletivo Provisório Permanente, formado pelos argentinos Victoriano Alonso, Eduardo Besualdo, Hernán Soriano e Pedro Wainer. Em locais específicos da cidade, tiras de papel são distribuídas para os passantes. Estes escrevem o que desejam nos bilhetes e os colocam em balões, que são lançados ao céu, carregando anseios anônimos que passeiam no ar até aterrissarem. Como o endereço eletrônico dos artistas está impresso nos papéis, quem encontra as bexigas entra em contato, e os pontos de decolagem e pouso são marcados em um mapa de Porto Alegre situado no armazém A5. Na última vez em que a reportagem do JU esteve lá, um balão lançado próximo ao Mercado Público recém havia sido encontrado em Viamão.

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Réplicas de prédios públicos são pintadas livremente em Monumentos Vandalizáveis, de José Carlos Martinat

Arte-camaleão – Em cima do Palácio do Itamaraty, o Congresso Nacional. Amontoam-se também o prédio do Ministério da Justiça, o Centro Administrativo de Porto Alegre, a Catedral de Brasília, o Museu de Arte e a Pinacoteca de São Paulo, as logomarcas do Banrisul e da Gerdau. No início da Bienal, a brancura dessas maquetes gigantes, confeccionadas pelo peruano José Carlos Martinat, ainda esperava a tinta dos pincéis e sprays convenientemente disponibilizados para o público. Pouco tempo após a abertura à visitação (e participação), esses “símbolos do poder” já estavam completamente coloridos de rabiscos, assinaturas, carimbos, declarações de amor, protestos, desenhos, versos de paz e xingamentos. A cada dia, a obra Monumentos Vandalizáveis é modificada por um público cuja espontaneidade costuma ser reprimida por alguns desses poderes, que têm suas casas pintadas no armazém A6 do Cais do Porto.

Em Árvore Magnética, trabalhos como o de Martinat passarão por pelo menos dez transformações. Isso tanto insere o tempo no eixo de compreensão das obras como demonstra que a arte não é estanque e convida a um retorno constante do público – “e da imprensa”, completa Mario Navarro, artista chileno encarregado da curadoria da exposição. “Esse conceito foi desenvolvido especialmente para a mostra e busca permitir ao público uma visão mais ampla do período que ela dura”, observa.

Para ele, a proposta está inscrita em uma ideia segundo a qual a Bienal não é apenas entretenimento: “Pensamos que se pode desenvolver conhecimento em função das obras de arte. No caso da Árvore Magnética, tem a ver com o fato de o artista sempre estar pensando que sua obra está em desenvolvimento, e não definida”, explica.

O também chileno Diego Fernandez, em Protocolo Ouro Preto, articula essas modificações para tratar da responsabilidade política da arte. São diversas salas contíguas, acessíveis apenas depois de a parede que as separa ser derrubada. No interior de cada um desses espaços são exibidos vídeos – na primeira, filmagens de Porto Alegre remetem, esteticamente, ao documentário O triunfo da vontade, em que a cineasta Leni Riefenstahl retrata a convenção do Partido Nazista de 1934; na última, serão mostradas as cenas da depredação de todas as paredes.

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A duna determina os contornos da imagem em Cair em si, de Márcia X

Dialogando com o absurdo Uma mulher de cabelos compridos enche calmamente copos com um líquido esbranquiçado que escorre de uma concha. A projeção é feita em uma das dunas formada pela areia depositada no armazém A3 por vinte caminhões. Os alunos da Escola Estadual Maria das Neves Petry, de Novo Hamburgo, observam com curiosidade a ação da artista carioca Márcia X, falecida em 2004, e autora de Cair em si, que integra a mostra Absurdo – uma das que mais impacto causa no público.

Lá, a mudança também faz parte da ordem do dia: o espaço e o suporte das obras se alteram ao longo do evento. Com curadoria da brasileira Laura Lima, a mostra tem como foco a instabilidade que é expressa, por exemplo, nas marcas na areia feitas pelo caminhar dos visitantes e pelas brincadeiras esculturais das crianças, que instigam o questionamento sobre os limites formais da arte.

A organização da Bienal, por meio de seu Projeto Pedagógico, trouxe escolas das redes pública e articular do estado para as dunas do armazém A3. Frente ao absurdo, crianças e adolescentes demonstravam espanto e excitação em relação a imagens tão diferentes do que estão acostumados. A estudante de Novo Hamburgo Miquele Cardoso, ao saber que viria a Porto Alegre para o evento, imaginou algo semelhante às pinturas que vê na telenovela Caras e Bocas – a concepção de arte que conhecia até então.

Com o auxílio dos mediadores, os alunos eram incentivados a pensar naquilo que observavam, ao que, com frequência, surgiam questionamentos como “qual é o objetivo desta obra?”. A resposta vinha com um convite à reflexão: “Vocês interpretam!”. Segundo a professora Maria Lucia Cattani, chefe do Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS, é característica da arte – não só da contemporânea – não ser algo fechado, permitindo diferentes olhares sobre si.

A argentina Marina de Caro, curadora do Projeto Pedagógico da Bienal, esclarece que as crianças devem ter um contato particular com as obras antes de terem sua interpretação mediada: “A proposta é que eles entendam as idéias primeiro, por meio de uma experiência, e, depois, comecem a receber informação.

Os próprios professores podem mediar porque eles sabem o que estão trabalhando com os pequenos, com quais áreas podem relacionar: a ideia de transformação do meio ambiente, da geometria, da história… São ferramentas de pensamento, e trata-se de um pensamento transversal, não linear”, considera.

Em relação aos demais visitantes, a mediação leva em conta um observador com olhar refinado: “Procuramos considerar um público que tem conhecimento, que maneja muita informação e que tem a possibilidade de falar. Promovendo um trabalho com fichas práticas, também há como associar as obras a diferentes áreas do saber. Então não é mediar a arte em si mesma, mas sim em diálogo com a realidade, com outras disciplinas, com o saber próprio de cada espectador”.

 

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Brincadeiras na areia interagem com obras e reforçam ideia de instabilidade proposta pela mostra Absurdo, no Armazém A3 do Cais do Porto

 

 

No concreto da cidade e no intangível do virtual

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"A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica"

Uma das características desta e das outras bienais é levar a arte a espaços não convencionais, empreendendo uma invasão da cidade. Claro, há mostras no MARGS e no Santander Cultural, locais cuja função evidente é abrigar exposições, mas as obras ganham também os armazéns do Cais, o Mercado Público, o Parque da Redenção e as ruas da cidade.

O artista pernambucano Paulo Bruscky, no primeiro dia da Bienal, realizou a performance Poesia Viva, na qual voluntários vestiram camisetas com letras que formavam palavras aleatórias. No trajeto entre o Mercado Público e o MARGS, a arte invadiu o cotidiano do movimentado Centro de Porto Alegre. Já o antigo palacete Casa dos Leões, localizado na Rua dos Andradas, ganhou novas formas sob a intervenção do paulista Henrique Oliveira. Pelas portas e janelas da Casa Monstro – como ficou conhecida a instalação Tapume –, se espalha uma massa disforme, semelhante a um tumor. Feita de compensado, ela chama a atenção de quem passa pela calçada.

As intervenções no dia a dia, porém, não duram apenas o período das bienais. Quase todas deixaram monumentos como herança. As “escadarias” (Cascata, de Carmela Gross) e o “pier” (Olhos Atentos, de José Resende), que se tornaram ponto de encontro na orla do Guaíba, foram presentes de edições passadas, assim como a SuperCuia, de Saint Clair Cemin, descrita recentemente pelo diretor do Memorial do Rio Grande do Sul, Voltaire Schilling, como “a exaltação de um superúbere de uma vaca premiada”.

Publicado no jornal Zero Hora, o artigo do historiador, A Capital dasMonstruosidades, trouxe para a arena pública uma polêmica nunca resolvida. A crítica à “feiúra” de alguns monumentos da cidade foi recebida com os aplausos de quem acredita na arte como representação do belo e com as vaias daqueles que defendem a multiplicidade, a provocação e o estranhamento atribuídos à arte contemporânea ainda que a renovação estética também tenha sido promovida pelo Modernismo. Na Bienal do Mercosul, há uma evidente hegemonia da segunda concepção, e é ela que permite a incorporação artística de novos suportes e tecnologias.

A mostra Projetáveis, por exemplo, reúne peças inscritas via Internet. A seleção, inovadora por si só, foi realizada a partir de um edital aberto. Entre vídeos, jogos interativos e performances de VJs e DJs, o requisito era a possibilidade de reprodução na web. Dos mais de 800 candidatos de cerca de cinquenta diferentes países, foram selecionados 19, que ocupam o prédio do Santander Cultural e podem ser vistos pelo site www.bienalmercosul.art.br/projetaveis

Computadores e projetores parecem uma transgressão, mas a professora do Instituto de Artes da UFRGS Maria Lucia Cattani, que participa da Bienal na mostra Desenho das Ideias, lembra que a arte sempre foi mediada por ferramentas: “O pincel já era uma tecnologia. Quanto a esse uso, que pode ser visto em Projetáveis, o tempo vai dizer se permanece ou não”.

Em Moonwalk, do tcheco Martin Kohout, por exemplo, vemos uma cena criada a partir de repetitivos carregamentos de imagens vazias do site Youtube, compondo uma pirâmide de barras de streaming. Já Drawing for Filó, do eslovaco Oto Hudec, reproduz em uma parede o relato de uma cozinheira angolana que mora em Portugal, enquanto, simultaneamente, é projetado no chão o desenho de uma paisagem que vai se formando conforme a descrição da entrevistada sobre a aldeia em que cresceu.

Se em anos anteriores as Bienais do Mercosul estabeleceram uma tradição de aproximação com o público, a sétima edição traz no nome essa intenção de comunicação, de diálogo. A “Grito e Escuta” não seria exagero acrescentar “Resposta”. Talvez por isso a proposta venha acumulando sucessos de crítica e visitação. As vozes do Mercosul, reunidas em Porto Alegre, têm encontrado muitos ouvidos dispostos a escutar.

 

O lado B da Bienal

Até mesmo o que é diferente e desafia os padrões tem o seu lado B. A partir de uma iniciativa de jovens artistas gaúchos, a maioria deles estudantes do Instituto de Artes da UFRGS, foi criada em 2007 a Bienal B. Paralela à do Mercosul, ela está em sua segunda edição e tem alcançado a meta de divulgar a arte  regional. Em 2009, são obras de 266 artistas expostas em 38 espaços, que vão de galerias a bares, tendo como centro de convergência um shopping center. Assim, o público esbarra na arte e é convidado a  dialogar com ela.

Segundo a curadora do evento, a artista plástica Isabel de Castro, a ideia surgiu da percepção de que havia uma demanda tanto de pessoas querendo expor quanto de um público disposto a acompanhar, apesar da recorrente escassez de visitantes em mostras de artes visuais: “Isso está relacionado com a fruição da obra, pois é diferente de um show de rock, em que uma banda pequena toca para milhares de pessoas ao mesmo tempo. A gente ainda não tem essa cultura de que um museu, por exemplo, pode atrair muita gente e que isso terá um retorno. Temos de criar isso”, justifica.

Profissionalizar o artista plástico regional é um dos objetivos mais fortes da curadoria, formada por professoras. A intenção é abandonar o romantismo do ofício e ir atrás de espaço – por isso, cada inscrito deveria articular o local para expor seu trabalho. As propostas que, por algum motivo, ainda não estavam maduras e não eram bem visualizáveis, receberam um parecer do que poderia ser melhorado e o incentivo a levar adiante o projeto, mesmo que desvinculado da Bienal B.

Vale dizer que a Bienal B não pretende se opor ao grande evento que movimenta a capital gaúcha a cada dois anos. É apenas uma forma de aproveitar a visibilidade de um momento no qual a cidade vive para as artes visuais: “Nós somos um movimento independente e queremos somar. A Bienal do Mercosul é internacional, há uma troca com a comunidade, mas não é propriamente do artista daqui. A Bienal B entra como contribuição para Porto Alegre e para a produção regional”, diz Isabel.





Tom Wolfe no Fronteiras do Pensamento: fail

17 11 2009

Não foi desta vez

Acabo de chegar da palestra do Tom Wolfe na 4ª edição do Fronteiras (agora Braskem) do Pensamento. O Salão de Atos da UFRGS não lotou, mas recebeu um público que fez justiça à presença da “lenda viva do jornalismo”. O que posso dizer é: ainda bem que não paguei para entrar. Quem deixou parte de sua fortuna no ingresso deve ter saído irritado. Não discuto os méritos de Wolfe como escritor ou jornalista. É dando uma de filósofo da contemporaneidade que a coisa desanda.

Enfiado em seu terno eterna e impecavelmente  alvo, Wolfe foi o gentleman que dele se espera. Simpático, engraçado – as piadas foram todas prejudicadas pela tradução, que inevitavelmente chuta para longe o timing e o vigor da comédia – e carismático como todo bom ancião, o precursor do new journalism acabou fazendo uma bagunça narrativa tão grande que duvido que alguém tenha entendido bem o que ele quis dizer.

Começou promissor: “Estamos vivendo o fim do capitalismo como o conhecemos, o fim do mundo como o conhecemos”, e o fim do sistema solar, da galáxia, do universo e assim por diante, tal como os conhecíamos. Para Wolfe, há três principais mudanças, e elas são tão confusas e similares que uma das perguntas do público – houve um espaço para perguntas, é claro – foi algo como: “Ok, a terceira mudança eu lembro, mas quais são as duas primeiras mesmo?”. Eu anotei:

1ª Grande Mudança: carnaval sexual. As universidades americanas (“United States” foi o termo mais ouvido) se tornaram playground de orgias e demais sacanagens.

2ª Grande Mudança: neurocientistas e biólogos. Eles não acreditam em livre-arbítrio, acham que fomos programados. Numa conferência cheia desses cientistas, Wolfe disse ter levantado a mão para encerrar uma discussão sobre o crime em uma sociedade na qual os indivíduos são fantoches de seus próprios genes: “Se somos todos programados, você e sua teoria também são. Desse jeito, não poderemos confiar em nada”. Oh yeah, xeque-mate!

3ª Grande Mudança: crise generalizada dos valores. Proponho um exercício mental: retire a Monalisa do quadro de Da Vinci e imagine a moça do sorriso misterioso atacando de personagem de um desenho animado da Disney. Nada respeitoso, não é? Foi isso que Wolfe fez com Nietzsche. Recortou coitados trechos que descansavam em paz entre os aforismos do filósofo alemão e colou em sua fala descontextualizada. Como resultado, Wolfe conseguiu o inédito feito de citar Nietzsche para LAMENTAR o estremecimento dos valores.

Bem se nota a enxurrada de problemas nessa análise. Só para começar, falar em livre-arbítrio é entrar num dos debates mais espinhosos que a teologia cristã é obrigada a enfrentar. Onisciência e livre-arbítrio são, simplesmente, incompatíveis. Uma lógica quase matemática demonstra isso com facilidade. Além disso, a Biologia não exclui a Sociologia, que está aí para ensinar que somos, também, seres sociais e históricos. Se é que somos pré-programados – e somos, ora, qual o problema em admitir? -, a realidade é capaz de nos mudar assim como temos a capacidade de operar sobre a realidade.

Discurso ideológico, portanto, o de Wolfe. E cheio de mágoas. Para ele, só ateus entram no clube dos intelectuais bacanas – of the United States.  Mas houve bons momentos. Ele avacalhou: disse que todas as pinturas de Picasso têm fundo cinza porque o artista não tinha noção de perspectiva, que Matisse não sabia desenhar mãos e que o cubismo é muito conveniente por permitir que o sujeito pinte os dois olhos num mesmo lado da cara, sem se preocupar com profundidade. Para Wolfe, há uma equação para isso: criatividade + falta de habilidade. Chamarei de “equação-Bienal”. Ele usou a equação-Bienal, que há pouco havia destruído modernistas, para atacar as instalações bisonhas dos artistas contemporâneos. Enfim, uma gozação generalizada. Foi a parte boa. Também ri com suas considerações sobre o “marxismo rococó”, para o qual o novo proletariado são os animais em extinção.

Meus fones de ouvido estavam uma merda, e meus ouvidos não quiseram entender bem as passagens em que ele falou sobre Proust e Joyce (aparentemente, acusou ambos de serem monótonos, especialmente “Ulysses”) e elogiou Rimbaud e Baudelaire.

Inacreditável mesmo foi o final, em que, para não deixar a plateia com “sentimentos negativos”, o escritor lembrou de uma época histórica “muito parecida com a nossa, o período mais libertino da Inglaterra”, que, para alívio geral, “foi seguido pela era vitoriana” (!). Ou seja: para não deixar o pessoal cabisbaixo com um futuro tenebroso, Wolfe anunciou a volta de um moralismo rígido, ridículo, solene e que só encontra lugar no nosso tempo nas carruagens luxuosas que se oferecem para turistas no Central Park e na afetação de conto-de-fadas das monarquias europeias. Assim tu me matas de alegria, Tom Wolfe! Porra, tudo bem, o cara tem 78 anos, nessa idade já se pode idealizar o passado.

O Juremir Machado, apresentador mais atrapalhado impossível, abriu a sessão de perguntas com uma questão sobre Kapuzinsky. Wolfe enrolou e não respondeu porra nenhuma. Depois, estudantes de jornalismo e jornalistas alternaram perguntas estúpidas como “a internet vai acabar com o jornalismo impresso?”, “o que você fez para descrever com tanta precisão a sociedade americana em ‘Fogueira das Vaidades’?” e a inacreditável “que semelhanças você vê entre new journalism e jornalismo literário?”. Antes de um constrangedor desrespeito do público, que começou a debandar tão logo Juremir Machado ensaiou uma deixa final, Tom Wolfe teve tempo de dizer que os blogs comprometem a noção de apuração jornalística (são baseados em boatos – isso não deixa de ser verdade) e que 95% das TVs americanas se pautam pelos jornais impressos.

Na saída, houve sessão de autógrafos. Se a palestra foi completamente anacrônica e frustrante, a assinatura do Tom Wolfe compensa por ser muito afudê:

Assinatura do Tom Wolfe

Assinatura do Tom Wolfe





O tempo e a chuva (postagem temática)

8 11 2009

Sam Beam é professor de cinema, e dirigiu este primoroso vídeo para uma das muitas belas canções do álbum “Our Endless Numbered Days”, do Iron & Wine, seu nome artístico como cantor.

……

Esta postagem participa da atividade idealizada por Rafael Gloria e formalizada através do blog Sintonizados. O tema desta edição foi “chuva”.





“The Fall”: o cinema fascinante de Tarsem Singh

7 11 2009

Cena de "The Fall", filme do indiano Tarsem Singh

Longe do circuito comercial, quando muito figurando na programação do Telecine Pipoca, uma obra-prima do cinema recente passou despercebida até pelos segmentos alternativos. Lamentavelmente apelidado de “Dublê de anjo” no Brasil, The Fall, filme do indiano Tarsem Singh (de A Cela), começou a circular em festivais em 2006 e somente neste ano estreou oficialmente, em DVD, neste país tropical e abençoado por Deus. Trata-se, em primeiro lugar e mais notavelmente, de uma explosão visual. A fotografia é bela a ponto de fazer o sujeito agradecer por estar vivo para ver coisas do tipo. Se o realizador já tinha surpreendido com a exuberância cenográfica de A Cela, em The Fall as cenas parecem trabalho de um meticuloso pintor de aquarelas.

Quando, procurando qualquer coisa em uma tarde desocupada, cheguei ao Telecine Pipoca, me enchi de ceticismo ao assistir à apresentação de cinco heróis bastante improváveis: Blue Bandit, interpretado por Lee Pace, que também é protagonista e narrador da “história dentro da história”; o Indiano; o ex-escravo Otta Benga; Luigi, italiano especialista em explosivos com um quê de árabe; e um jovem e excêntrico CHARLES DARWIN (??) e seu macaquinho de estimação, Wallace. Todos eles estão em uma cruzada para matar o cruel governador Odious.

“What the hell?! Não fico nem dez segundos vendo isso”. O que me salvou do erro foi perceber a linguagem de câmera privilegiada do filme. Se fosse cinema infantil, ao menos tinha esse mérito. Segui na audiência. Toda a maluquice se explicava: tratava-se de uma história sendo contada pelo enfermo Roy Walker (Lee Pace), um dublê que havia se acidentado ao tentar impressionar a namorada com uma manobra. Amargurado com a paralisia das pernas e com a perda da moça para o protagonista do filme em que atuava, ele pensa em suicídio no leito do hospital, até que a menina Alexandria (Catinca Untaru), imigrante que está hospitalizada com um braço quebrado, o encontra. Os diálogos entre os dois são um espetáculo à parte. Se Lee Pace está no seu melhor papel até a data, a atuação de Catinca é comovente:

Toda a história narrada por Roy é mostrada tal como ela se desenrola na imaginação de Alexandria. Por isso, conforme ela interrompe a narração para fazer apartes ou demonstrar preferências, a aventura e os personagens sofrem modificações. Roy aproxima-se de Alexandria e aproveita a amizade para pedir favores: a intenção é a de que a menina lhe traga as drogas que lhe possibilitarão o suicídio. Nos momentos em que Alexandria hesita, ele ameaça não continuar a história. A inocência da menina e o oportunismo do dublê permanecem em um jogo que se manifesta na narrativa de Roy, em que alternam-se momentos de singelo e simpático humor e passagens sombrias, tristes e poéticas.

O ambiente surreal da ficção reproduz a realidade desregrada, livre e ingênua da imaginação infantil, e eis toda a licença que Tarsem teve para criar um mundo incoerente, labiríntico e despudoradamente deslumbrante. Pouco importa que Charles Darwin seja retratado como um prodígio de vestuário extravagante, ou que sejam explorados todos os clichês existentes – apenas para depois derrubá-los -, ou que multipliquem-se as perguntas sem resposta: é o mundo mágico que Roy cria especialmente para Alexandria. Mas não apenas essa realidade é bonita, como também aquela em que se passa a história mesma do filme, a trama que envolve os personagens “reais”. Aqui, como não poderia deixar de ser, predomina a coerência, a cronologia e toda a verossimilhança que se exige de uma narrativa séria. Ainda assim, junto à força das atuações, Tarsem parece emprestar um toque especial a cada ângulo de câmera e arranjo de luz. A trilha sonora não deixa nada a desejar, e as canções, compostas exclusivamente para o filme, algumas cantadas pelos próprios atores, exalam poesia, e não servem como pano de fundo para a ação visual, mas são protagonistas paralelas da narrativa, numa complementaridade que em momentos alcança a força e o lirismo dos melhores lances do cinema musical.

Ao longo da aventura, o Bandido Mascarado tenta se vingar de Odious, assim como todos os demais heróis, de alguma forma ofendidos pela crueldade do governador. Note-se que Odious não é ninguém menos que o próprio ator que surripiou a moça por quem Roy estava apaixonado. Naturalmente, a relação de Roy e Alexandria torna-se cada vez mais estreita, e o afeto mútuo irá determinar o destino de duas histórias.

São poucos os filmes que reúnem as capacidades de divertir, emocionar e proporcionar satisfação estética. Arrisco dizer que Tarsem logrou criar uma obra cuja maestria não lhe ousa negar qualquer pessoa que a assista: aqui, a beleza só pode ser unânime, a não ser naqueles particulares casos em que a sensibilidade do espectador tem a profundidade de uma poça d’água. Assim como a épica abertura em preto-e-branco, o final não decepciona, e compila imagens que prestam uma justa e bela homenagem. Mas não vou encher isto aqui de spoilers. Enfim, um dos melhores filmes que já vi na vida. Primoroso. Segue o trailer:





Uniban, um caso de colégio

1 11 2009

Acabo de ver as cenas do caso Uniban. O episódio, para quem ainda não sabe, pode ser resumido assim: uma moça foi à universidade com um vestido “curto demais” e o tumulto que os estudantes fizeram (a Folha de S. Paulo chegou a abrir matéria com “…tumulto causado por ‘pouca roupa’ de aluna”, como se roupas, objetos inanimados que são, pudessem causar algum tumulto),  com direito a coro (“puta, puta!”)  e escolta policial, foi digno do que aqui chamamos de “gurizisse”.

Não falta quem tenha notado os descaminhos do moralismo que motivou o acontecimento (como aqui e aqui). Concordo com essa interpretação, em particular com esses dois textos que acabo de disponibilizar, mas acredito que a situação foi menos obra de moralismo que de imaturidade. Quando li a notícia, não me permiti formar opinião irresoluta, porquanto ainda havia o vídeo para assistir. E o vídeo foi uma viagem de volta à adolescência, aos êxtases abobados de uma idade em que a personalidade se adequa ao ambiente para poder ser bem recebida, em que se colocar no lugar do outro já não é tão distante quanto era na infância, mas torna-se ferramenta para a realização de chacotas e ofensas que garantirão subida na escada da hierarquia tribal, e bem se sabe que as tribos de adolescentes, ávidas por afirmarem a si mesmas sobre todas as demais, valoram a atitude ofensiva e desrespeitosa como a mais sublime das virtudes.

Trata-se do retrato de uma fragilidade de caráter, uma insegurança ainda não superada, uma etapa que, para deixar de ser obstáculo, não é vencida senão com certo esforço, com a repressão daqueles mesmos instintos que deixamos aflorar, porque lá nos é permitido, nos estádios de futebol. Os estudantes da Uniban, a julgar pelo episódio da moça de saia curta, estão numa espécie de fase oral, quiçá anal, do desenvolvimento psicossocial. É de impressionar o gosto com que se reuniram para xingar a colega. Alguns sacodiam, se balançavam todos de tanta alegria. O espetáculo circense ocorrido nos corredores da Uniban não se reduz, pois, a moralismo. Os acusadores nem indignados estavam – à exceção das meninas, em especial aquelas que devem acumular dívidas amargas com o próprio corpo e, portanto, consigo mesmas (há quem não veja mais em si mesmo do que um corpo, não nos faltam exemplos disso, os indivíduos do nosso tempo costumam trocar o ser pelo ter – e ter tão-somente para parecer).

Vá lá, a menina deveria saber que existe hora e local para usar roupas insinuantes, e que a universidade não é bem o lugar para esse tipo de figurino. Ainda assim, sem deixar de reconhecer o erro primeiro da estudante apedrejada em praça pública, a universidade é ainda menos lugar para a imaturidade, a molecagem, os preconceitos, o desrespeito e o oba-oba próprios dos recreios de colégio. Quero estar certo em duvidar que tal barbaridade fosse ocorrer nas faculdades que conheço mais de perto. Onde estudo, acredito que a mulher de pouca roupa teria atraído alguns vários olhares masculinos, efeito que é de se esperar e que a própria moça pretendia causar, mas não haveria rebuliço. Caso houvesse, os impropérios logo seriam tachados de coisa de gente careta e intolerante. Essa bagunça na Uniban é o que uma certa professora minha (meio doida, é verdade) chamava de “colegião”. Se eu estudasse na Uniban, iria só de cueca na próxima aula.

Só para encerrar: fico impressionado com a diversidade de casos em que as mulheres jogam no lixo tudo o que suas colegas de gênero, as feministas, conseguiram conquistar. Não espanta tanto quando lembramos que muitas mulheres tratam umas às outras como rivais.





Radio Friendly Song – Jon Lajoie

31 10 2009





Esboço sobre totalitarismo e religião – Postagem temática

17 10 2009

Que a fé obscurece a realidade é inegável. Também é fato que a realidade objetiva é matéria de discussão – o Gregory Gaboardi e o Eduardo Nunes estão habilitados para tratar a questão com o devido zelo -, mas devemos rechaçar de pronto qualquer insinuação de que a razão não é a ferramenta mais habilitada para fazer a ponte entre sujeito e realidade. Ao contrário de nos enveredarmos por debates labirínticos, recorro à ideia bastante simples, inclusive expressa por Obama em discurso recente, de que o bem-estar na sociedade massificada se torna impraticável se a fé é o elemento norteador das condutas – ou pior, das políticas, como se verá adiante. Fique claro: o exercício particular – ou de grupos que não interferem na liberdade alheia – da espiritualidade em nada atenta contra a boa vida. A questão, aqui, é dissertar sobre a fé como o vértice dominante das relações entre sujeitos e, em consequência, como motor de uma irracionalidade que, como qualquer ideologia, se presta a legitimar processos de dominação psicológica e econômica. Dito isso, podemos seguir.

São muitas as discrepâncias entre um regime teocrático e um regime baseado em uma ideologia totalitária, tanto em termos de motivação como no que se refere aos meios de coerção de que se lançam mão. O perigo, entretanto, em teoria, é o mesmo. Ao oprimido – maior interessado – não é mais que uma sutileza se a opressão vem de Stálin ou do Tribunal de Inquisição. Qualquer ismo a que se consagre uma política de totalidade será igualmente perigoso. Quando a religião esteve à frente do Estado - como ainda está em alguns lugares, embora sem tanta força -, o resultado foi um obscurantismo político que parece um inexplicável e nefasto hiato entre o direito romano e o iluminismo.

O que se propõe, enfim, é traçar, de forma embrionária, pontos de aproximação entre o discurso totalitário tal como apresentado por Hannah Arendt em sua “As origens do totalitarismo” (todas as citações sem referência de autor remetem a essa obra) e o palavrório religioso com que se busca a dominação dos fiéis. Também foi consultada a obra de Terry Eagleton (EAGLETON, Terry. A Idéia de Cultura. São Paulo: UNESP, 2003).

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É de se ponderar que o mais autêntico retrato de um líder totalitário deva ser buscado em algum ponto entre a sua interdependência em relação à massa e a disciplinada adoração que esta lhe endereça. Se, por um lado, o líder é mero “funcionário das massas que dirige” (p. 375), por outro, ele as dirige com o peso da inquestionabilidade e sob o preço da lealdade total.

O fascínio direcionado aos líderes era efeito da disposição das massas em dar crédito a explicações definitivas e universalistas e do talento magnético de Hitler e Stálin para suprir essa demanda através da ideologia e do discurso demagógico (o que foi, justamente, a fraqueza de Lênin, imperdoavelmente afeito a reconhecer os próprios erros). Pouco importava que eles soassem loucos. O próprio fanatismo, as repetições incessantes, a retórica infalível e inquestionável, enfim, o caráter convicto da loucura a legitimava como a bem-vinda verdade que vinha preencher um mundo contraditório.

O poder de infiltração psicológica da ideologia totalitária é tal que, mesmo diante de crimes contra os próprios filhos ou contra si mesmo, o adepto do regime não deixa abalar sua convicção no partido e, “dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento” (p. 358).

O que une Hitler a Stálin e os faz nutrir admiração recíproca é o fato de ambos professarem ideologias de abrangência mundial, ao contrário de Mussolini, que, preso ao nacionalismo, contentou-se com a ditadura unipartidária e esteve longe do totalitarismo, perto do qual o fascismo italiano pareceria um regime de tibetana paz. Essa aproximação entre o Führer e o líder soviético bem demonstra a intenção de traçar leis históricas imutáveis, que explicariam o passado e determinariam o futuro. Mais que uma maneira de legitimar crimes políticos e demais absurdos e sadismos, essa prática permitiu aos líderes totalitários injetar nas massas o veneno próprio das doutrinas inabaláveis. Postando-se como verdadeiros profetas e forçando a realidade a provar suas previsões, a voz dos líderes parecia às massas como a ordem definitiva a ser seguida. Líderes totalitários são fabricantes e agentes de uma utopia do pesadelo. De modo oposto ao que Eagleton chama de “boa utopia”, aquela que “descobre uma ponte entre o presente e o futuro naquelas forças no presente que são potencialmente capazes de transformá-lo” (EAGLETON, 2003, p. 37), os líderes totalitários forjam uma ponte no presente, constroem-na com formato e destino arbitrários, rumo a um futuro inalcançável e reeditado a cada nova e violenta guinada do seu delírio de poder.

De parte da elite e da ralé, os absurdos do terrorismo de Estado são aceitos por ocuparem o espaço de antigas ideias banais e hipócritas a respeito da vida e da sociedade. Sintoma disso é a rejeição à historiografia tradicional, cujo vácuo foi preenchido com fantasiosas teorias conspiratórias, previsões messiânicas e triunfalismo revolucionário. Já o homem da massa, não tão propenso ao ímpeto do totalitarismo quanto a elite e a ralé, deve ser conquistado através da propaganda.

Das muitas características da propaganda totalitária, pode-se depreender certos aspectos inerentes às massas. É inevitável que sejam encontrados elementos análogos no discurso totalitário e na retórica do contemporâneo protestantismo cristão inflamado. Isso deve-se às similaridades psicológicas, ressalvadas as devidas proporções e particularidades históricas, entre as massas que se entregaram ao totalitarismo e aquelas que se entregam à mentira organizada das religiões caça-níqueis. A receptividade pode ser explicada pela atração que as massas sentem pelos “sistemas absolutistas que pretendem ver todos os eventos da história dependentes das grandes causas originais ligadas pela corrente da fatalidade, como que eliminando os homens da história da raça humana” (Tocqueville apud ARENDT, 2006, p. 395). Não é diferente do que fazem os pastores ao delegar a Deus os sentidos dos acontecimentos passados e as decisões em relação ao futuro.

A vantagem da propaganda totalitária é a referida capacidade de fazer suas profecias incidirem sobre a realidade, mediante a criação artificial das condições necessárias para que tal empreendimento se concretize. Por ser talvez a característica mais importante do líder de massas, a infalibilidade deve se fazer acompanhar pela capacidade de realizar predições verdadeiras. Como não estamos falando de videntes no poder, falamos de evidentes fabricações, no presente, das verdades proferidas no passado.

Não há, entretanto, na obra de Hannah Arendt, apontamento mais hábil em relação à psicologia das massas modernas do que aquele que escancara a sua incapacidade de entender o acaso, o que, mais uma vez, as coloca ao lado dos crentes fervorosos, que se agarram ao sobrenatural mesmo diante das mais flagrantes evidências naturalísticas em contrário:

“Não acreditam em nada visível, nem na realidade da sua própria experiência; não confiam em seus olhos e ouvidos, mas apenas em sua imaginação, que pode ser seduzida por qualquer coisa ao mesmo tempo universal e congruente em si. O que convence as massas não são os fatos, mesmo que sejam todos inventados, mas apenas a coerência com o sistema do qual esses fatos fazem parte.” (p. 401)

E continua:

“O que as massas se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita. Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso. A propaganda totalitária prospera nesse clima de fuga da realidade para a ficção, da coincidência para a coerência” (p. 401)

Está atestada, portanto, a abertura dada às mentiras totalitárias, que encontram solo fértil na “vontade de coerência” das massas, que, inconformadas com o acaso, entregam-se a qualquer conjunto de ideias, com a única condição de que elas façam sentido em relação a si mesmas.

Estivesse viva para observar o fenômeno da propaganda religiosa de massa, especialmente através dos meios de comunicação massivos, como a televisão, a autora de Origens do Totalitarismo talvez se espantasse com a similaridade entre seus apontamentos sobre os discursos dos líderes e a conduta dos seguidores nos regimes totalitários e o fanatismo religioso do século XXI, ainda que as semelhanças estejam restritas aos âmbitos da comunicação e da psicologia. Os trechos que a autora dedica à dissecação psicológica das massas modernas soam como um convite para estudos mais criteriosos que possam mapear com maior precisão essas semelhanças.

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Este texto participa da atividade idealizada por Rafael Gloria e formalizada através do blog Sintonizados. O tema desta edição foi “fé”.





O futuro nebuloso do produto música

9 10 2009
P 5 - ATUALIDADE - CDs - Foto Flávio Dutra

Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

São tempos difíceis para a indústria fonográfica. Em 2007, o mercado brasileiro amargou a mais íngreme queda entre os 20 países que mais movimentam esse setor da economia – arrecadação 25% menor que a de 2006, conforme dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês). Dentre esses, África do Sul e Índia tiveram solitários aumentos. A atual crise econômica compõe esse cenário, mas não basta para explicar a cena: no Brasil, as vendas vêm decrescendo desde 2004, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos. Possibilitadas pela internet, a pirataria e a democratização do acesso aos “bens culturais” lançam a dúvida sobre como os criadores poderão ser remunerados com seu trabalho transitando livremente pela rede.

Artistas do mercado independente debatem-se com a questão: “Não há como gravar um disco com menos de 40 mil reais. Um longa-metragem não custa menos de meio milhão de reais. E quem paga por isso? Há muita coisa sendo pensada, mas é um período nebuloso, ninguém sabe como resolver a equação”, observa o músico Arthur de Faria.

O que possibilita que um produto seja vendido é a sua escassez. A abundância dos arquivos digitais de música – que podem ser copiados indefinidamente – faz com que o valor de troca desses “bens” tenda a zero. Mas, como ressalta o produtor musical Maurício Tagliari, da gravadora independente YB Music, não há nada de free nisso: “Quem ganha com isso? Dizem que é o público. Eu respondo que é o interesse muito econômico de quem fatura com o tráfego de dados. Não é gente pobre: se a informação circula livremente, eles ganham, e muito. E que o criador morra de fome. Eu adoraria que o público tivesse acesso gratuito ao meu trabalho, mas não é assim. Ele paga a conexão, paga a lan house. Tem muito dinheiro rolando, basta distribuir corretamente”.

Em 2007, a banda inglesa Radiohead lançou o álbum In Rainbows pelo próprio site e deixou os internautas estabelecerem o preço do download. Muita gente baixou as faixas sem pagar nada, mas houve quem desse £250 (aproximadamente R$ 700) pelo material. Experiências similares são cada vez mais frequentes e pretendem eliminar os intermediários entre artista e público. No Brasil, o cantor Lobão colocou discos para vender em bancas de revista. Para Arthur de Faria, entretanto, isso dá certo para quem já se consolidou no mercado: “Para o Lobão funcionou porque ele era conhecido, já tinha passado pela grande indústria”.

Criminalização – No final de setembro, a cantora inglesa Lily Allen comprou briga com músicos contrários à criminalização do download ilegal no Reino Unido, a quem chamou de “ricos e bem-sucedidos que fazem turnês esgotadas em estádios e que têm as maiores coleções de Ferraris do mundo” – o que não é o caso de artistas em início de carreira. Ou seja, seria fácil defender a arte compartilhada quando se desfruta de uma fama que a indústria ajudou a edificar.

Em maio, a criminalização dos downloads ilegais chegou a ser aprovada na França. A lei previa a suspensão da internet do infrator, a cobrança de multas de até 300 mil euros e prisões de até três anos. Não demorou um mês para que a justiça francesa percebesse que isso feria direitos individuais e derrubasse as sanções propostas pela lei.

A tendência é que a complicação aumente. Sites já disponibilizam faixas musicais (e audiovisuais, como no caso do Youtube) para serem tocadas sem que o usuário precise “baixá-las” – o chamado streaming: “É o destino natural e vai gerar uma mudança de pensamento, porque abole de vez o caráter de propriedade. Tu terás acesso a todas as músicas sem precisar tê-las, ainda que esse ‘ter’ seja apenas um arquivo digital”, considera Arthur de Faria.

Na contramão da ideia de propriedade intelectual estão as licenças copyleft (clara oposição ao copyright), que permitem que as obras criativas sejam livremente utilizadas, difundidas e modificadas. Os benefícios são evidentes para o caso dos softwares livres, que podem ser melhorados com o compartilhamento.

Música que gira – Para combater a pirataria e a tendência à dispensabilidade do suporte físico, o sertanejo Ralf (que faz dupla com Chrystian) criou o SMD (sigla em inglês para “Disco Semi-metálico”): mídia com capacidade de gravação de 60 minutos de áudio, em que apenas uma parte do disco é “metalizada”. Isso faz com que a produção do SMD seja 30% mais barata que a do CD e o preço final ao consumidor possa ser fixado em R$ 5.

O formato tem atraído tanto músicos independentes, como o gaúcho Richard Serraria, que se apresentou no projeto Unimúsica da UFRGS no dia 1.º de outubro, quanto sucessos de vendas, como a própria dupla Chrystian e Ralf. Ainda assim, o SMD tem obstáculos espinhosos pela frente. Se as grandes gravadoras aderissem à nova mídia, os R$ 5 arrecadados com cada unidade teriam de ser distribuídos entre os pagamentos de impostos e direitos autorais e os custos de produção e distribuição. Para as tiragens menores dos artistas independentes, o lucro é ainda mais improvável: vendendo mil SMDs, arrecada-se 5 mil reais, quantia que não cobre os gastos nem de uma produção modesta.

Contra a maré dos anúncios de óbito do suporte físico, o retorno do vinil se anuncia como personagem novo dessa novela. De todo modo, o público que vem ressuscitando os bolachões tem uma relação com a música que não se aplica à geração MP3: “Para quem ‘pilha’ nessa coisa de áudio, o MP3 é um lixo, mas quem ‘pilha’ é 0,5% das pessoas que ouvem música. Cada vez mais existe uma audição dispersa. Tu ficas três horas achando um som do bumbo na gravação do disco, e o cara vai ouvir em caixinhas ruins no computador ou com fones de ouvido na rua. A música está virando um pano de fundo”, constata Arthur de Faria.

Perspectivas – O músico e compositor Eloy Fritsch, professor do Departamento de Música do Instituto de Artes da UFRGS, considera que a internet favorece os nichos alternativos: “Ela oferece independência em relação às gravadoras majors, o que é uma ajuda para quem trabalha com música instrumental, rock progressivo, jazz… É um tempo de pluralidade, variedade e segmentação”. Arthur de Faria concorda: “O Arthur de Faria & Seu Conjunto tem uma carreira que seria impensável 20 anos atrás. Podemos ser ouvidos no mundo inteiro, conseguimos ir tocar no Acre… Sem a democratização do acesso, isso seria impossível”.

Um estudo recente dos economistas Felix Oberholzer-Gee e Koleman Strumpf, da Harvard Business School, indica que a troca de arquivos pela web não prejudica a produção cultural. Embora as vendas de discos tenham caído entre os anos de 2000 e 2007, a produção de álbuns duplicou e a indústria seguiu lucrando – a diferença é que a receita, antes concentrada nas gravadoras, se diluiu entre diversas outras empresas de entretenimento. O prejuízo financeiro causado pela troca de arquivos seria compensado por uma maior procura por espetáculos ao vivo.

Eloy Fritsch acredita que os músicos terão de se dedicar a turnês: “Existe a necessidade de colocar mais o pé na estrada, para arrecadar o que antes era renda de direitos autorais”. Quanto ao comércio, o professor opina: “A arte não é um bem de consumo. Dar um preço para a arte é uma coisa de cada um. Para remunerar o artista, uma alternativa seria cobrar uma taxa mínima por cada download e enviar para um fundo de arrecadação, que distribuiria isso para os músicos”, sugere, acrescentando que o sistema de distribuição atual, realizado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), é ineficaz, deixando muita gente sem receber.

Os números da IFPI para a venda de CDs indicam que o mercado fonográfico está em crise, mas o mesmo não vale para o comércio de música digital: em 2007, ele cresceu 185% no Brasil e 40% no mundo. Os próximos capítulos são imprevisíveis. O certo é que dificilmente outro álbum alcançará as mais de 50 milhões de cópias vendidas por Thriller. Paralelamente à oferta de produtos musicais, está crescendo a oferta da música como serviço. As estações musicais virtuais possibilitam à música driblar a condição de bem de consumo material. Se o critério para eleger o “rei do pop” é a venda de discos, é provável que Michael Jackson tenha se eternizado como majestade.

Em defesa do tapa-olho

O DJ e economista inglês Matt Mason afirma que a pirataria auxilia o capitalismo a se reinventar: “A pirataria transforma os mercados nos quais opera, modificando o modo de distribuição e forçando companhias a serem mais competitivas e inovadoras. Os piratas não apenas defendem o domínio público do controle corporativo; também forçam o big business e os governos a oferecerem o que queremos, quando queremos”, escreve no livro The Pirate’s Dilemma: how youth culture is reinventing capitalism (ainda sem tradução para o português).

A bandeira está em alta. O Partido Pirata, surgido na Suécia, vem ganhando adeptos e chegou a eleger, neste ano, um deputado para o Parlamento Europeu. Para o produtor musical Maurício Tagliari, não há motivo para comemoração: “Glamourizar a pirataria só interessa ao pirata e a grandes corporações que ganham com o tráfego de dados. A ideologia pseudoanarquista é instrumentalizada pelo sistema para iludir jovens libertários bastante eficientemente. Não estão nem um pouco preocupados com a remuneração do criador cultural”, e completa: “Se empresas como as de telefonia móvel não ganhassem com o tráfego da minha obra, eu apoiaria a adoção do amadorismo oficial em arte, mas vivemos num sistema capitalista e eu defendo a remuneração do direito autoral”.

O livro “The Pirate’s Dilemma: how youth culture is reinventing capitalism”, de Matt Mason, está disponível para download: http://thepiratesdilemma.com/download-the-book

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Esta reportagem foi realizada por Demétrio Pereira para o Jornal da Universidade (link em breve).





Conversa fiada sobre fotografia (postagem temática)

26 09 2009

Uma das opiniões que ronda a infinita discussão sobre a fotografia protesta que ela seja um índice. Isso equivale a dizer que a fotografia não representa o real, ou seja, não passa de uma interpretação maquinística da realidade. Um cara que defende isso é o Arlindo Machado.

A argumentação de Machado sugere que, devido à fotografia ser resultado de processos físico-químicos complexos, ela não pode ser tratada como indício de realidade, como querem outros, divulgadores da teoria segundo a qual a fotografia carrega em si um indício do que foi, um atestado de passado, uma prova de ocorrência. Pois bem, se a fotografia não passa de interpretação, e se interpretação é aquilo que, de certa forma, filtra a realidade, podemos dizer, sem medo de errar, que não conhecemos a realidade, mas a interpretação que nossos sentidos oferecem dela. Aos nossos olhos escapam o infravermelho e o ultravioleta; nossos ouvidos ignoram o que lhes é demasiado grave ou agudo, lhes é imperceptível uma infinidade de ruídos, assim como os violenta grande intensidade sonora. E assim por diante.

E só estamos falando nos sentidos. Não chegamos àquilo que mais caracteriza nossa interpretação da realidade, que é, percebam a ironia, a nossa privilegiada capacidade de atribuir signos às coisas do mundo (e do além-mundo!). Não só a linguagem, como o próprio pensamento, opera uma mediação, nos impede de abarcar o todo, de tocar o mundo real (porque não há palavras para tudo e porque, quando pensamos algo, não estamos pensando o resto).

Resumindo, um conceito de realidade tão feroz e implacável como o de Arlindo Machado acaba por ser inútil, decretando, em última instância, que a realidade é ilusória ou que, simplesmente, não existe. Ora, não precisamos de uma autoconsciência tão sisuda para saber que não há como representar com fidelidade o real. A própria etimologia da palavra “índice” escancara isso: um índice não passa de um signo que serve como indício de realidade. Se é signo, opera uma significação, se opera uma significação, só pode ser parte de uma interpretação. E aí está: pouco importa que a fotografia seja resultado de uma interpretação, porque… O QUE NÃO É INTERPRETAÇÃO? É claro que a fotografia não é inocente, que enquadra o mundo conforme a intenção do fotógrafo, mas o que não é assim? O que é inocente?

Nietzsche se apressaria em dizer que TUDO é interpretação. Concordo com ele. É interpretação, inclusive, a certeza que as fotografias nos transmitem de que o retratado, de fato, ocorreu. Que as pessoas estiveram ali, que o dia estava chuvoso, que alguém usava barba, que uma menina era mais esbelta, que as vestimentas de ontem não são as mesmas de hoje. Poucas coisas nos oferecem atestados tão próximos do fato. Se é verdade que não há fatos, não deixa de ser verdade a compreensão de que podemos diminuir a distância entre interpretação e fato.

Deixemos de chatice: a fotografia é um indício de realidade. Claro, tudo fica mais complicado com a popularização da manipulação digital das imagens, mas isso fica para uma postagem futura, provavelmente mais interessante que essa.

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Este texto participa da atividade idealizada por Rafael Gloria e formalizada através do blog Sintonizados. O tema desta edição foi “fotografia”.





O passeio (ou ironia de um narrador onisciente)

21 09 2009

Entrou correndo no vagão. Vira a tira metálica serpentear ao longe, nas curvas que levavam à estação. Tivera que correr – nada inesperado, porquanto lhe restava ainda toda a subida da passarela e a compra da passagem no guichê, na frente do qual havia um casal de cegos. Estavam perdidos num abraço apertado, cegos por natureza e surdos por opção: tudo o que importava era o abraço. A cena aparentava despedida. Ele segurava uma rosa vermelha na mão; ela chorava com delicadeza, mas sem dissimular o sofrimento.

Uma moça de meia-idade precedeu nosso protagonista no guichê. Vestia uma calça lilás, algum desses tecidos leves. Esmalte vermelho nos dedos, cabelos tingidos de um loiro que já perdia a briga contra o castanho:

- Me vê uma para Londres ou Amsterdã – ela brincou com o jovem atendente, entretida com o próprio riso.

Ele não entendeu. Ou não gostou. Este trem ligava Porto Alegre a São Leopoldo. Ela mudou a tática:

- Me vê uma integração – ao que ele respondeu, sério:

- Para onde?

- São Leopoldo.

As portas já iam fechando, chegaram a ameaçar morder sua mochila, quando, sem passar pelo trauma, nosso protagonista mergulhou para o interior do trem. Todos os lugares estavam ocupados, o que o levou a se ajeitar no piso, encostado a uma parede. Não era um problema: preferia o chão às cadeiras e bancos, que sempre avaliou como as mais inúteis invenções humanas – consideração redundante, dada a precária capacidade inventiva dos outros animais –, excetuando-se desse julgamento, é claro, sua conhecida função, a das cadeiras e bancos, de preservar as bundas das sujeiras térreas.

À frente do nosso anônimo personagem, um recente casal se divertia com um provável bebê acidental. Ainda sem dentes, o filho articulava protopalavras, até que um “dada” soou um pouco mais claro, para a completa festa dos pais e de mulheres gordas com sacolas que esperaram o momento para desenhar sorrisos bregas em seus rostos redondos.

De pé, dois meninos conversavam. Na verdade, apenas um falava, enquanto o outro sorria e concordava, balançando vigorosamente a cabeça. Usavam mochilas e, o falante, uma camiseta oficial de um time de futebol europeu. O assunto era sobre jogos de computador. A primeira edição do Jogo de Guerra era melhor que a segunda, que, apesar de ter mais armas disponíveis, passava-se toda na II Guerra Mundial, enquanto a primeira versão permitia ao usuário se enveredar por batalhas futuristas. Além disso, segundo o fã de futebol, muito se dizia que a melhor arma do referido jogo era a Metralhadora, o que, na sua opinião, era uma besteira, já que a Espingarda era muito mais precisa e possibilitava o acerto a distância, que era sua tática predileta. Saíram na estação Aeroporto, e o conversador ia comentando sobre como a Empresa de Jogos irá realmente inovar no Jogo de Guerra 3, que será extremamente realista e se passará no Afeganistão.

Olhava para a paisagem, o nosso protagonista. Assistia a tudo passando rapidamente pela janela do trem e gostava da sensação de entreolhar o sol matutino driblando as folhas das árvores e os corredores dos prédios para vir abater-lhe as vistas. Olhou para o lado oposto de onde estavam os meninos. De pé, havia duas meninas, mas apenas uma delas falava. Contava sobre como o namorado, que não gostava de dançar, lhe aborrecia um final de semana após o outro. O sujeito só queria ficar em casa, evitava ocasiões em que se via obrigado a dividir a companheira com desconhecidos ou, pior, amigos. A argumentação da menina-ouvinte, que resolveu opinar, faz jus ao que é próprio das amizades femininas, ou seja, o completo despudor quando se trata de arrumar a vida alheia:

- Já passou da hora de tu chutares ele.

Se formos levados a aceitar o maldoso, porém eficaz, estereótipo da amizade feminina, é provável que a menina-ouvinte esteja interessada no namorado que não sabe dançar.

A um canto do vagão, tentando esbravejar sem chamar atenção, um homem vestido com o macacão de uma empresa de bebidas repreendia um pobre interlocutor personificado por um telefone celular desproporcionalmente grande. O homem segurava o aparelho telefônico – espécie de supercalculadora dotada de poderes telecomunicativos – com as duas mãos, afirmando:

- É a última vez que vou deixar passar em branco isso daí. Não. Não. Escuta: é a última. Tu não vais mais sair antes da hora. Tu levas tudo na farra. É a segunda vez que tu deixas todo mundo na mão. Agradece que eu estou te avisando. O pessoal lá quer a tua cabeça.

O trem parou, as portas se abriram. Nosso protagonista levantou e saiu. Não ouviu as palavras íntimas do casal de cegos nem a gracinha da mulher de calça lilás. Perdeu o espetáculo fonético do bebê. Não acompanhou a palestra sobre jogos de computador nem as lamúrias amorosas de uma menina, tampouco o conselho desinibido da outra. Ignorou os xingamentos do trabalhador de macacão, o som da ferrovia ao abandono do trem e o choro quase inaudível de um cego desacompanhado que caminhava ao seu lado, espetando o chão com sua vareta, em direção às roletas e à atmosfera rica e ruidosa da cidade. Nosso protagonista, vejam bem, usava fones de ouvido.