Da fidelidade

4 07 2009
Foto: Hepp / Getty Images

Foto: Hepp / Getty Images

Não é tarefa árdua encontrar homem que trai. O mesmo serve para as mulheres, mas, como conheço melhor a rapinagem masculina, restrinjo os possíveis alvos desta postagem aos varões.

Entendo traição em namorico, em casamento desgastado, em união de fachada. Não compreendo é a traição malandra, pilantra, aquela que chega com a mansa justificativa de que “aquilo não significou nada para mim”. É a conversa mole de quem faz juras de amor, enfia aliança no dedo, fica amigo da sogra, mas não consegue segurar o macho dentro de si. Há gente querendo tudo. Não é para menos: nossa época oferece tudo. Monogamia chega a ser defeito. Mas o problema é este mesmo: para que namorar se tu queres abraçar o mundo? Para que firmar compromisso? Por que não optar por umas pegadinhas ocasionais, menos cerimoniosas e imunes ao enfado? Nada impede.

Se está definitivamente espalhada a estabanada ideia de que é mais homem quem come mais, ainda não caiu por terra a importante noção de que também com moral se constitui o homem. É muito simples viver sem recusar os prazeres urbanos. Mas, nesse caso, se é para fazer festa, alguém me explique o que leva o cidadão a fazer de si um “namorado”. Esse tipo de relação, salvo combinação prévia, pressupõe fidelidade recíproca. Vejam bem, não é pedir demais: se é bom para os dois, que mal há? Quem não gosta dos termos de compromisso não deveria assinar embaixo.

Algumas vozes se erguem para dizer que os compromissados amargarão, lá pelos trinta e tantos, a juventude perdida ao lado das onipresentes namoradas. Como se chegasse um dia e, de repente, viesse o estalo: “Ops, quanta perda de tempo!”. Ora, arrastar uma perda de tempo até os trinta anos de idade é atitude merecedora de desilusão. É um desatino comparável a algemar a si mesmo e jogar as chaves fora. Se está ruim, termina logo! Nada obsta a suspensão do compromisso, ou mesmo sua exclusão, a qualquer tempo, no caso de desagrado unilateral – ainda mais em se tratando de namoro, em que nem contrato há para ser observado, não é?

A única promessa é a de fidelidade e, se a carne é fraca demais para cumpri-la, que ela não seja feita. Não é uma questão de idealizar o amor, de acreditar em carametade e em  “viveram felizes para sempre”. Nada disso. É uma questão de assumir responsabilidades, de ser verdadeiro com os outros e consigo mesmo. E não é pela desconfiança na companheira que uma traição é justificada. Disse Sartre: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. A safadeza do outro e a crueldade do mundo não são justificativas para que nivelemos tudo por baixo.

E, se o relacionamento foi bom, como alegar perda de tempo? É claro que o namoro elimina uma infinidade de outras possibilidades, mas essa é a natureza de toda e qualquer escolha. Quem decidiu ficar longe dos compromissos perde as horas, dias e semanas inteiras da diáfana beleza do amor romântico, trocada em favor da liberdade do amor irrestrito.

E aí está a covardia dos traidores. Não abdicam de nada. Listam toda a sorte de argumento para camuflar o desvio de caráter: “Ela nunca vai saber. O que os olhos não veem, o coração não sente”, “O homem precisa mais”, etc. Não têm coragem de escolher entre as gostosas amarras do namoro e os imprivisíveis corredores da solteirice. Querem tudo, pois, assim, o tempo não estará sendo jogado fora. Todas as oportunidades que a vida oferece são tragadas. Se pudessem, votariam, os insaciáveis,  na esquerda e na direita. Seriam gremistas e colorados, conforme o time que estivesse em melhor momento.  Em suma, são filhos-da-puta pragmáticos, da mesma estirpe dos engravatados mais ofídicos de Brasília. Se mentem com tanta naturalidade para quem sugerem endereçar o coração, o que sobra para o restante das pessoas? “Se é bom para mim, foda-se o resto”.

Ninguém é capaz de nos libertar da animalidade. Trazemos o bárbaro trancado cá dentro, e basta a circunstância propícia se apresentar (a maioria de nós leva o bicho para passear nos estádios de futebol) para que instintos milenares tomem conta da nossa frágil e tão recente máscara de civilidade. Somos uns animais. Ainda assim, o namoro traz alguns dos ingredientes de que só o homem dispõe. São belos mitos edificados no desenrolar da transformação da natureza em cultura.

Se se pretende aderir a esse código, a esse conjunto caótico de sentidos que é o amor, com toda a carga monogâmica que nossa ocidentalidade consagrou, o mínimo a se esperar é a fidelidade. Vendo bem, parece ser o único requisito para o namoro. A moça ainda pode achar o Kaká lindo; o rapaz ainda pode apreciar o rebolado das mulheres. Não se pede que ninguém deixe de ser o que é. Aquele anônimo dentro de nós de que fala Saramago permanece intocado e soberano, a despeito dos amores e desamores. O que muda, sim, é tudo aquilo que dentro de nós tem nome. Honremos os nomes que damos aos mundos que criamos e compartilhamos. São eles, afinal, que fazem a vida valer a pena.


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5 respostas

4 07 2009
Rafael Gloria

Sua capacidade de hiererquizer ótimos argumentos juntamente com um texto leve e bom de ser lido é impressionante

concordo e assino embaixo com o texto

4 07 2009
karen

ó o futuro redator-chefe da Folha de São Paulo! ;P
ótimo texto, querido. e assino embaixo também.

9 07 2009
Fagner

Já disse que tu é foda? :P

24 07 2009
Jessica Mello

quando tu escrevestes “se está ruim, termina logo!”, fiquei pensando: de todos (isso inclui as mulheres também, certo?) os traidores que conheci, posso dizer que 95% tinham um bom relacionamento – para não dizer ótimo.

ou seja, sequer existe uma desculpa justificável para o ato.

24 07 2009
Demétrio Rocha Pereira

Interessante lembrança, Jessica!

De qualquer forma, estar “ruim” foi utilizado mais no sentido de “ruim por estar apenas com uma pessoa” do que estar “ruim o relacionamento COM esta pessoa”. É mais uma insatisfação quantitativa do que qualitativa, digamos assim, que leva o indivíduo à traição :P . Mas, com certeza, tu trouxeste um elemento novo hehe. E verdadeiro!

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